I
A COURESPONDENCIA
DE
Fradique Mendes
Obras de Eça de Queiroz
O crime do padre Amaro. Quarta edição inteiramente re- fundida, recomposta, e diílerente na forma e na acção
da edição primitiva. 1 grosso volume Iç200
Os Maias. 2 grossos volumes 2^000
O Mandarim. Quarta edição. I volume 500
O primo Bazilio. Quarta edição. 1 grosso volume. . . . I$fl00
A Relíquia. Terceira edição. 1 grosso volume 1$U00
A illustre casa de Ramires. 1 volume 1$000
A cidade e as serras. 1 volume 800
As minas de Salomão. 1 volume 600
Revista de Portugal. 4 grossos volumes 12§000
Ko prelo :
Contos.
Prosas Barbaras.
Clironicas.
S. Christovão (inédito).
\
Eça de Queiroz
A (OI{|||^;SPO\l)K\(Í\
UE
FKAIllItllE lEIDEK
(MEMORIAS E NOTAS)
• SEGUNDA EDIÇÃO
PORTO
De I/Ho k Irinfio, Ediiorfs 1902
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(702
Pertence no Brazil o direito de propriedade d"esta obra ao cidadão Francisco Alves, livreiro editor no Rio de Janeiro, que, para a garantia que llie oflerece a lei n." 496 de 1 d'Agosto de 1898, fez o competente deposito na Bibliotheca nacional, segun- do a determinação do art. 13." da mesma Lei.
fvPRAlÍY
MAR 2 1 1968
Poflo — Imi>rensn Modenta
A minha intimidade com Fradiqoe Mendes come- -çou em 1880, em Paris, pela Paschoa, — justamente na semana em que elle regressara da sua viagem à Africa Austral. O meu conhecimento porém com esse homem admirável datava de Lisboa, do anno remoto de 1867. Foi no verão d'esse anno, uma tarde, no café Martinho, que encontrei, n'um nu- mero já amarrotado da Revolução de Setembro, este nome de C. Fradique Mendes, em letras enormes, por baixo de versos que me maravilharam.
Os themas («os motivos eraocionaes», como nós dizíamos em 1867) d'essas cioco ou seis poesias, reunidas em folhetim sob o titulo de Lapidarias, tinham logo para mim uma originalidade captivante e bemvinda. Era o tempo em que eu e os meus ca-
G A CORRESPONDÊNCIA DE FRADIQUE MENDES
maradas de Cenáculo, deslambrados pelo Lyrismo Épico da Legende des Siecles, «o livro que um graude veuto uos trouxera de Guernesey» — deci- diramos abominar e combater a rijos brados o Ly- rismo Intimo, que, enclausurado nas duas pollega- das do coração, não comprebendendo d'eDtre todos os rumores do Universo senão o rumor das saias d'Elvira, tornava a Poesia, sobretudo em Portugal, uma monótona e interminável confidencia de glorias e mariyrios de amor. Ora Fradique Mendes pertencia evidentemente aos poetas novos que, seguindo o Mes- tre sem-igual da Legende des Siècles, iam, n'uma universal sympathia, buscar motivos emocionaes fora f das limitadas palpitações do coração — á Historia, á Lenda, aos Costumes, ás Religiões, a tudo que através das idades, diversamente e unamente, revela e define o Homem. Mas além d'isso Fradique Men- des trabalhava um outro filão poético que me se- duzia— o da Modernidade, a notação fina e sóbria das graças e dos horrores da Vida, da Vida am- biente e costumada, tal como a podemos testemu- nbar ou preseniir nas ruas que todos trilhamos, nas moradas visinhas das nossas, nos humildes des- tinos deslizando em torno de nós por penumbras humildes.
Esses poemetos das Lapidarias desenrolavam com effeito themas magnificamente novos. Ahi um Santo allegorico, um Solitário do século vi, morria uma tarde sobre as neves da Silesia, assaltado e doma- do por uma tão inesperada e bestial rebellião da Car-
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ne, qne, á beira da Bemavpntnrança, subitamente a perdia, e com ella o fnicto divino e custoso de cin- coenta annos de penitencia e d'ermo: um corvo, fa- cundo e veibo além de toda a velhice, contava faça- nhas do tempo em que seguia pelas Gallias, n'um bando alflgre, as legiões de César, depois as hordas de Alarico rolando para a Itália, branca e toda de mármores sobre o azul : o bom cavalleiro Percival, espelho e flor d'IdealivStas, deixava por cidades e cam- pos o sulco silencioso da sua armadura d'ouro, cor- rendo o mundo, desde longas eras, á busca do San- Gral, o myático vaso cheio do sangue de Christo, que, n'uraa manhã de N4al, elle vira passar e lam- pejar entre nuvens pir sobre as torres de Camerlon: um Satanaz de feiíio germânico, lido em Spinosa e Leibnitz, dava n'uma viella de cidade medieval uma serenada irónica aos astros, «gottas de luz no frio ar geladas»... E, entre estes motivos de esplendido symbolismo, lá vinha o qnadro de singela moderni- dade, as Velhinhas, cinco velhinhas, com chalés de ramagpns pelos hombros, um lenço ou um ca- baz na mão, sentadas sobre um banco de pedra, n'um longo silencio de saudade, a uma restea de sol d'ou- tono.
Não asseguro todavia a nitidez d'estas bellas re- miniscências. Desde essa sesta de agosto, no Mar- tinho, não encontrei mais as Lapidarias: e, de res- to, o que n'ellas então me prendeu, não foi a Idéa, mas a Forma — uma forma soberba de plasticidade e de vida, que ao mesmo tempo me lembrava o ver-
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so marmóreo de Lecomte de Lisle com nm sangue mais quente nas veias do mármore, e a nervosi- dade intensa de Baudelaire vibrando com mais nor- ma 6 cadencia. Ora precisamente, n'esse anno de 1867, eu, J. Teixeira de Azevedo e outros camara- das tínhamos descoberto no céo da Poesia Franceza (único para que nossos olhos se erguiam) toda uma plêiade d'estrellas novas onde sobresahiam, pela sua refulgencia superior e especial, esses dois soes — Baudelaire e Lecomte de Lisle. Victor Hugo, a quem chamávamos já «papá Hugo» ou «Senhor Hugo- Todo-Poderoso», não era para nós um astro — mas o Deus mesmo, inicial e immanente, de quem os astros recebiam a luz, o movimento e o rylhmo. Aos seus pés Lecomte de Lisle e Baudelaire faziam duas constellações de adorável brilho: e o seu encontro fora para nós um deslumbramento e um amor! A mocidade d' hoje, positiva e estreita, que pratica a Politica, estuda as cotações da Bolsa e lê George Ohnet, mal pôde comprehender os santos enthusias- mos com que nós recebíamos a iniciação d'essa Arte Nova, que em França, nos começos do Segundo Im- pério, surgira das«ruinas do Romantismo como sua derradeira encarnação, e que nos era trazida em Poesia pelos versos de Lecomte de Lisle, de Baude- laire, de Goppée, de Dierx, de Mallarmé, e d'outros menores: e menos talvez pôde comprehender taes fervores essa parte da mocidade culta que logo desde as escolas se nutre de Spencer e de Taine, e que procura com anciã e agudeza exercer a critica, onde
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nós outr'ora, mais iogenuos e ardentes, nos abando- návamos á emoção. Ea mesmo sorrio hoje ao pen- sar n'essas noites em que, no quarto de J. Teixeira d' Azevedo, enchia de sobresalto e duvida dois có- negos que ao lado moravam, rompendo por horas mortas a clamar a Charogne de Baudelaire, tremulo e pallido de paixão :
Et pourtant vous serez semblable à cette ordure,
A cette horrible infection, Étoile de mes yeux, soleil de ma nature,
Vous, mon ange et ma passion !
Do outro lado do tabique sentíamos ranger as camas dos ecclesiasticos, o raspar espavorido de phosphoros. E eu, mais pallido, n'um êxtase tre- mente :
Alors, oh ma beauté, dites à la ver mine
Qui vous mangera de baisers. Que j'ai gardé la forme et Tessence divine
De mes amours décomposés !
Certamente Baudelaire não valia este tremor e esta pallidez. Todo o culto siacero, porém, tem uma belleza essencial, independente dos merecimentos da Deus para quem se evola. Duas mãos postas com legitima fé serão sempre tocantes— mesmo quando se ergam para um santo tão aíTectado e postiço como S. Simeão Stylita. E o nosso transporte era cândido, genuinamente nascido do Ideal satisfeito, só compa- rável áquelle que outr'ora invadia os navegadores peninsulares ao pisarem as terras nunca d'antes pi*
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sadas, Eldorados maravilhosos, férteis em delícias e thesouros, oode os seixos das praias lhes pareciam logo diamantes a reluzir.
Li algures qne Jaan Podcb de Leon, enfastiado das cinzeutas plaoicies de Castella-a -Velha, não eo- contraudo também já eocanto dos pomares verde- negros da Andaluzia — se fizera ao mar, para bas- ear outras terras, e mirar alyo nuevo. Três aunos snlcou incertamente a melancolia das aguas atlân- ticas: mezes tristes errou perdilo nos nevoeiros das Bermudas: toda a esperança findara, já as proas gastas se voltavam para os lados Cide ficara a Hespanha. E eis que D'uma mauíiã de grande sol, em dia de S. João, surgem ante a armada extática os esplendores da Florida 1 aGracias te sean, mi S. Juan bendito, que hé mirado algo nweíío/» As lagrimas corriamlfie pelas barbas brancas — e Juan PoDce de Lecn morreu de emoção, ^óá não mor- remos: mas lagrimas congéneres com as do velho mareante saltaram-me dos olhos quando pela pri- meira vez penetrei por entre o brilho soujbrio e os perfumes acres das Flores do Mal. Éramos assim absurdos em 18671
De resto, exactamente como Ponce de Leon, eu só procurava em Lilteralnra e Poesia* a/yo nueoo que mirar. E para um meridional de vinte annos, amando sobretudo a Côr e o Som na plenilude da sua riqueza, qne poderia ser esse algo nucKo se- não o luxo novo das formas novas? A Forma, a belleza inédita e rara da Forma, eis realmente, n'es-
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ses tempns de delicado sensualismo, todo o men in- teresse e todo o meu cuidado 1 Decerto eu adorava a Idéa na sua essência ; — mas quanto mais o Ver- bo que a encarnava! Baudelaire, mostrando á sua amante na Charogne a carcassa podre do cão e equi- parando em ambas as misérias da carne, era para mim de maguiQca surpreza e enlevo: e diante d'esta crespa e atormentada subtilisação do sentir, que po- dia valer o fácil e velho Lamartine no Lago, mos- trando a Elvira a cansada lua, e comparando em ambas a pallidez e a graça meiga? Mas se este ás- pero e fúnebre espiritualismo de Baudelaire me che- gasse expresso na liogua lassa e molle de Casimir Delavigne — en não lhe teria dado mais apreço do que a versos vis do Almanach de Lembranças,
Foi sensualmente enterrado n'esta idolatria da Forma, que deparei com essas Lapidarias de Fra- dique Mendes, onde julguei vêr reunidas e fundi- das as qualidades discordantes de magestade e de nervosidade que constituíam, ou me pareciam cons- tituir, a grandeza dos meus dois Ídolos — o auctor das Flô7'es do Mal, e o auctor dos Poemas Barba-* ros. A isto accrescia, para me fascinar, que este poeta era portuguez, cinzelava assim preciosamen- te a lingua que até ahi tivera como jóias acclama- das o Noivado do Sepulchro e o Avè César!, ha- bitava Lisboa, pertencia aos Novos, possuía decer- to na alma, talvez no viver, tanta originalidade poé- tica como nos seus poemas! E esse folhetim amar- rotado da Revolução de Setembro tomava assim a
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importância d'ama revelação d'Arte, uma aurora de Poesia, nascendo para banhar as almas moças na luz e no calor especial a que ellas aspiravam, meia adormecidas, quasi regeladas sob o algido luar da Romantismo. Graças te sejam dadas, meu Fradique bemdito, que na minha velha lingua hé mirado algo nueto! Creio que murmurei isto, banhado em gratidão. E, com o numero da Revolução de Se- tembro, corri a casa de J. Teixeira de Azevedo, á travessa do Guarda-xMór, a annunciar o advento es- plendido !
Encontrei-o, como de costume, nos silenciosos vagares das tardes de verão, em mangas de camisa, diante de uma bacia que trasbordava de morangos e de viaho de Torres. Com vozes clamorosas, ati- rando gestos até ao tecto, declamei-lhe a Morte da Santo. Se bem recordo, este asceta, ao findar so- bre as neves da Silesia, era miserrimamente trahi- do pela desleal Natureza I Todos os appetites da paixão e do corpo, tão laboriosamente recalcados por elle durante meio século d'ermo, irrompiam de repente, á beira da eternidade, n'um lumulta bestial, não querendo para sempre findar com a carne que ia findar — antes de serem uma vez sa- tisfeitos! E os anjos que, para o receber, desciam d'aza serena, sobraçando molhos de Palmas e can- tando os Epithala mios, encontravam, em vez d'um Santo, um Salyro, senil e grotesco — que de ro- jos, entre bramidos sórdidos, mordia com beijos vo- razes a neve, a macia alvura da neve, onde a
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sea delírio fariosamente imaginava nudezes de cor- tezãs ! . . . Tudo isto era tratado com uma grandeza sóbria e rude que me parecia sublime. J. Teixeira d'Azevedo achou também «sublime — mas brejeiro». E concordou que convinha dr^seniulhar Fradique Men- des da obscuridade, e erguei o no alto do escudo como o radiante mestre dos Novos.
Fui logo n'essa noite á Hecolução de Setembro, procurar um companheiro meu de Coimbra, Marcos Vidigal, que, nos nossos alegres tempos de Direita Romano e Canónico, ganhara, por tocar concertina, lêr a Historia da Musica de Scudo, e lançar atra- vés da Academia os nomes da Mozart e de Bee- thoven, uma soberba aucloridade sobre Musica cias» sica. Agora, vadiando em Ll>bua, escrevia na Reto- lução, aos domingos, uma «i^hronica lyricas — para gozar gratuitamente o bilhete de s. Carlos.
Era um moço com cahellos ralos e côr de man- teiga, sardento, apagado de idéas e de modos — mas que despertava e se illuminava todo quando lo- grava «a chance (como elle diz'a) de roçar por um homem celebre, ou de arraochar n'uma coisa ori- ginal» ; e isto tornára-o a elle, pouco a pouco, quasi original e quasi celebre. Wessa noite, que era sab- bado e de pesado calor, lá estava á banca, com uma quinzena d'alpaca, suando, bufando, a espre- mer do seu pobre craneo, como d'um limão meio sêcco, gottas d'uma Chrooica sobre a Volpini. Ape- nas eu alludi a Fradique Mendes, áquelles versos que me tinham maravilhado — Vidigal arrojou a pen-
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na, já risonho, com nm clarão alvoroçado na face molle:
— Fradique? Se conheço o grande Fradii|ne? E' DQeu parental E' mfii palricii-! E' meu parceiro!
Ainda bem, Vi^ligal, íiinla hein!
Fomos ao Passeio Pdbjct» (o ide Marcos se ia encontrar com om agiria). Toioáaos sorvetes de- baixo das acácias : e p^lo chniiii>la da HevíAução conheci a origem, a mocidade, os fíilos do poeta das Lapidarias.
Carlos Fra'liqne Mendes p'^ríe ci^ a nma velha e rica familia dos Açores; e desc^ndíít por varonia do navegador D. Lopo Mendes. filti<i sngnndo da casa da Troba, e donatário d'nma das i>rimeiras ca- pitanias creadas nas Ilhas por começos do seca- lo XVI. Sea pai, homem magrificameiit« beMo. mas de gostos rudes, morrera (quando Carlos aindi ga- tinhava, d'am de>astre, na caça. Sei.s annos d^^pois sua mãi, senhora tão airosa. oen«<Hliva e Kmra que merecera d'iim pi»eta da Terc-irn o ii"me de Virgem d'Ossian, morria tambein d'im)a febre trazida dos campos, onde andara bu<'(>hc mpuip, n'iim dia de sol forte, cantanilo e ceifa. du fetio. Carlos ficou em companhia e sob a tutela dtj sua avó mater- na, D. Angrlina Frndi^ae, velba estouvala, erudita € exótica que colleccionava ave'^ empalhadas, tradu- zia Klopstoik, e perpetuamente soffria dos «iardos
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d'Amori). A sua primeira educação fora singular- mente emmaraohada : o capellão de D. Angelina, ao- tigu frade beoediclino, ensinou-lhe o latim, a dou- trina, o horror á maçonaria, e outros principies só- lidos; depois um coronel francez, duro jacobino que se batera em 1830 na barricada de S'-.Merry, veio abalar estes alicerces espirituaes fazendo traduzir ao rapaz a Hucelle de Voltaire e a Declaração dos direi- tos do homem; e finalmente um allemão, que aju- dava D. Angelina a enfardelar Klopstock na verna- culidade de Filinto Elysio, e se dizia parente de Em- maouel Kant, completou a confusão iniciando Carlos, ainda antes de lhe nascer o buço, na Critica da Ra- zão pura e na heterodoxia metapbysica dos profes- sores de Tubinguen. Felizmente Carlos já então gas- tava longos dias a cavallo pelos campos, com a sua matilha de galgos: — e da anemia que lhe teriam causado as abstracções do raciocínio, salvou-o o so- pro fresco dos montados e a natural pureza dos re- gatos em que bebia.
A avó, tendo imparcialmente approvado estas em- brulhadas linhas d'educação, decidiu de repente, quan- do Carlos completou dezeseis annos, mandal-o para Coimbra que ella considerava um nobre centro d'es-i tudos clássicos e o derradeiro refugio das Huma- nidades. Corria porém na Ilha que a traductora de Klopstock, apesar dos sessenta annos que lhe re- vestiam a face d'um pêilo mais denso que a hera d'uma ruina, decidira afastar o neto — para casar com o bulieiro.
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Durante Ires annos Carlos tocou guitarra pela Penedo da Saudade, eucharcou-se de carraseão na tasca das Camelas, publicou na Idéa sonetos ascé- ticos, e amou desesperadamente a filha d'am ferra- dor de Lorvão. Acabava de ser reprovado em Geo- metria quando a avó morreu subitamente, na sua quinta das Tornas, n'um caramanchão de rosas, onde se esquecera toda uma sesta de junho, tomando café, e escutando a viola que o cocheiro repicava com os dedos carregados d'anneis.
Restava a Carlos um tio, Thaden Mendes, ho- mem de luxo e de boa mesa, que vivia em Paris preparando a salvação da Sociedade com Persigny^ com Morny, e com o príncipe Luiz Napoleão, de quem era devoto e credor. E Garlos^ foi para Paris estudar Direito nas cervejarias que cercam a Sor- bonne, á espera da maioridade que lhe devia trazer as heranças accumuladas do pai e da avó — calcu- ladas por Vidigal n'um farto milhão de cruzados. Vidigal, filho d'uma sobrinha de D. Angelina, nas- cido na Terceira, possuía por legado, conjuntamente com Carlos, uma quinta chamada o Corcovello. D'ahi lhe vinha ser «parente, patrício e parceiro» do homem das Lapidarias.
Depois d'ísto Vidigal sabia apenas que Fradi- que, livre e rico, sahira do Quartier-Latm a come- çar uma existência soberba e fogosa. Com um ím- peto de ave solta, viajara logo por todo o mundo, a todos os sopros do vento, desde Chicago até Je- rusalém, desde a Islândia até ao Sahará. N'estas jor-
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nadas, sempre emprehendidas por uma solicitação da iDtelligencia oq por anciã d'emoções, achára-se envolvido em feitos históricos e tratara altas perso- nalidades do secolo. Vestido com a camisa escarlate, acompanhara Garibaldi na conquista das Dnas-Sicilias. Encorporado no Estado-Maior do velho Napier, que lhe chamava the Poriuguese Lion (o Leão Portoguez), fizera toda a campanha da Abyssinia. Recebia cartas de Mazzini. Havia apenas mezes que visitara Hugo no seu rochedo de Gnernesey. . .
Aqui recuei, com os olhos esbugalhados I Victor Hugo (todos ainda se lembram), desterrado então em Guernesey, tinha para dós, idealistas e demo- cratas de 1867, as proporções sublimes e lendárias d'um S. João em Pathmos. E recuei protestando, com os olhos esbugalhados, tanto se me afigurava fora das possibilidades que um portnguez, um Men- des tivesse apertado nas suas a mão augusta que escrevera a Lenda dos Séculos I Correspondência com Mazzini, camaradagem com Garibaldi, vá I Mas na ilha sagrada, ao rumor das ondas da Mancha, pas- sear, conversar, scismar com o vidente dos Misera- «eis — parecia- me a impudente exaggeração d'um ilhéo que me queria intrujar. . .
— Jurol gritou Vidigal, levantando a mão ve- ridica ás acácias que nos cobriam.
E immediatamente, para demonstrar a verosimi- lhança d'aquella gloria, já altíssima para Fradique, contou-me outra, bem superior, e que cercava o estranho homem d'uma aureola mais refulgente. Não
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se tratava já de ser estimado por um homem ex- celso — mas, coisa preciosa entre todas, de ser ama- do por uma excelsa mulher. Pois bem I Durante dois annos, em Paris, Fradique fora o eleito de Anoa de Léon, a gloriosa Anna de LéoQ, a mais culta e bella certeza (Vidigal dizia «o melhor bo- cado») do Segando Império, de que ella, pela gra- ça especial da sua voluptuosidade intelligeale, como Aspasia no século de Péricles, fora a expressão e a flôrl
Muitas vezes eu lera no Figaro os louvores de Anna de Léon, e sabia que poetas a tinham cele- brado sobre o nome de Vénus Victor iosa. Os amores com a cortezã não me impressiouaram decerto tanto como a intimidade com o homem das Contemplações : mas a minha incredulidade cessou — e fradique as- sumiu para mim a estatura d'um d'esses seres que, pela seducção ou pelo génio, como Alcibíades ou como Gcethe, dominam uma civilisação, e d'ella colhem deliciosamente tudo o que ella pôde dar em gostos e em Iriumphos.
Foi por isso talvez que corei, intimidado, quan- do Vidigal, reclamando outro sorvete de leite, se offereceu para me levar ao surprehendente Fradique. Sem me decidir, pensando em Novalis que tam- bém assim hesitava, enleado, ao subir uma manhã em Berlim as escadas dllegel — perguntei a Vidi- gal se o poeta das Lapidarias residia em Lisboa. . . Não 1 Fiadique viera de Inglaterra visitar Cintra, que adorava, e onde comprara a quinta da Saragoça, no
A CORRESPONDÊNCIA DK FftADlQUE MENDES 1^
camiQho dos Capnelios, pjira ter de verão em Por- tugal um repouso fidalgo. fc^siiv*^ra lá desde o dia de Sauto António: — e ag-tra parara em Lisboa no Hotel Central, anles de rfcdber a Paris, sen centro e sea lar. De resto, accroceutou Marcos, não havia coma Fradijue niugnem tão sitnpleí?, tão alegre, tão fá- cil. E, se eu desf^java contiecer um homem ge- nial, que espera >>se ao outro dia, doa:iingo, ás duas» depois da missa d » Loreto, á porta da Casa Hava- neza.
— Valeu? A's duas, religiosamente, depois da missa !
Bateu-me o coração. Por fim, com um esforço, como JNovalis no palamar d'Htígel, afiancei, pagando os sorvetes, que ao outro dia, ás duas, religiosa- mente, mas sem missa, estaria no portal da Hava- oeza t
II
Gastei a noite preparando phrases, cheias de pro- fundidade e belleza, para lançar a Fradique Men- des I Tendiam todas á glorificação das Lapidarias. E lembro me de ter, com amoroso cuidado, bu- rilado e repolido esta:— «A forma de v. ex.* é
50 A CORRESPONDÊNCIA RE FRADÍQUE MENDES
nm mármore divino com estremeci oQentos hnma- noslv
De manhã aporei requintadameote a minha toi- lette como se, em vez de Fradique, fosse encontrar Aona de Léon — com quem já n'essa madrogada, n'am sonho repassado de erudição e sensibilidade, eu passeara na Via Sagrada que vai de Athenas a Eleusis, conversando, por entre os lyrios que des- folhávamos, sobre o ensino de Platão e a versifica- ção das Lapidarias. E ás duas horas, dentro de uma tipóia, para que o macadam regado me não ma- culasse o verniz dos sapatos, parava na Havaneza, pallido, perfumado, commovido, com uma tremen- da rosa de chá na lapella. Éramos assim em 18671
Marcos Vidigal já me esperava, impaciente, roen- do o charuto. Saltou para a tipóia; e batemos atra- vés do Loreto, que escaldava ao sol de agosto.
Na rua do Alecrim (para combater a pueril emo- ção que me enleava) perguntei ao meu companhei- ro quando publicaria Fradique as Lapidarias. Por entre o baralho das rodas Vidigal gritou :
— Nunca!
E contou que a publicação d'aquelles trechos na Bevolução de Setembro quasi occasionára, entre Fra- dique e elle, «uma pega intellectual». Um dia, de- pois de almoço, em Cintra, emquanto Fradique fu- mava o seu cfiiboiík persa, Vidigal, na sua familia- ridade, como patrício e como parente, abrira sobre a mesa uma pasta de velludo negro. Descobrira, surprehendido, largas folhas de versos, n'uma tinta
A CORRESPONDÊNCIA DE FRADIQUE MENDES 21
já amarellada. Eram as Lapidarias. Lera a primei- ra, a Serenada de Satan aos astros. E, maravilha- do, pedira a Fradique para publicar na Rovolução algumas d'essas estrophes divinas. O primo sorri- ra, consentira — com a rigida condição de serem fir- madas por um pseudonymo. Qaal?/.. Fra dique aban- donava a escollia á pbantasia de Vidigal. Na reda- cção, porém, ao rever as provas, só lhe acudiram pseudonymos decrépitos e safados, o Independente, •o Amigo da Verdade, o Observador, — nenhum bas- tante novo para dignamente firmar poesia tão nova. Disse comsigo: — «Acabou -se! Sublimidade não é ver- gonha. Ponho-lhe o nomel» Mas quando Fradique viu a Revolução de Setembro ficou livido e chamou, regelaiamenle a Vidigal «indiscreto, bnrguez e phi- listeu»! — E aqui Vidigal parou para me pedir a si- gnificação de philisieu. Eu não sabia ; mas archivei gulosamente o termo, como amargo. Recordo até que logo n'essa tarde, no Martinho, tratei de philisteu o auctor coQsideravel do Avè César!
— De modo que, rematou Vidigal, é melhor não lhe fatiares nas Lapidarias !
Sim, pensava eu. Talvez Fradique, á maneira do chanceller B.icon e d'outros homens grandes pela acção, deseje esconder d'este mundo de materialidade e de força o seu fino génio poético I Ou talvez essa ira, ao vêr o seu nome impresso debaixo de versos com que se orgulharia Lecomte de Lisle, seja a do artista nobremente e perpetuamente insatisfeito que não aceita
22 A CORRESPONDÊNCIA DE FRADIQUE MENDES
ante os homens como sua a obra onde sente imper- feições! Estes modos de ser, tão superiores e novos, cabiam na minha admiração como óleo D'oma fo- gueira. Ao pararmos no Central tremia d'acanha- mento.
Senti um allivio quando o porteiro annuncíou que o snr. Fradique Mendes, n'essa manhã, cedo, tomara uma caleche para Belém. Vidigal empallideceu, de desespero :
— Uma caleche ! Para Belém !. . . Ha alguma coisa em Belém?
Murmurei, n'uma idéa d'Arte, que havia os Je- ronymos. IN'esse instante uma tipóia, lançada a tro- te, estacou na rua, com as pilecas fumegando. Um homem desceu ligeiro e forte. Era Fradique Mendes.
Vidigal, alvoroçado, apresentou-me como um «poe- ta seu amigo». Elle adiantou a mão sorrindo — mão delicada e branca onde vermelhejava um rubi. De- pois, acariciando o hombro do primo Marcos, abria uma carta que lhe estendia o porteiro.
Pude então, á vontade, contemplar o cinzelador das Lapidarias, o familiar de Mazzini, o conquista- dor das Duas-Sicilias, o bem-adorado de Anna de Léon 1 O que me seduzia logo foi a sua esplendida solidez, a sã e viril proporção dos membros rijos, o aspecto calmo de poderosa estabilidade com que pa- recia assentar na vida, tão livremente e tão firme- mente como sobre aquelle chão de ladrilhos onde pousavam os seus largos sapatos de verniz resplan-
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decendo sob polaioas de linho. A face era do feitio aquilino e grave que se chama cesareano, mas sem as linhas empastadas e a espessura flaccida que a tradição das Escolas iavariavelmenle attribue aos Cé- sares, na tela ou no gesso, para os revestir de ma- gestade; antes pura e fina como a d'um Lucrécio moço, em plena gloria, todo nos sonhos da Virtude e da Arte. Na pelle, d'uma brancura láctea e fresca, a barba, por ser pauca decerto, não deixava depois de escanhoada nem aspereza nem sombra ; apenas um buço crespo e leve lhe orlava os lábios que, pela vermelhidão húmida e pela siuuosidade subtil, pare- ciam igual e superiormentâ talhados para a Ironia e para o Amor. E toda a sua finura, misturada de energia, estava nos olhos — olhos pequenos e negros, brilhantes como Contas de ooyx, d'uma penetração aguda, talvez insistente de mais, que perfurava, se enterrava sem esforço, como uma verruma d'aço em madeira moile.
Trazia uma quinzena solta, d'uma fazenda preta e macia, igual á das calças que cabiam sem um vinco: o collete de linho branco fechava por botões de coral pallido: e o laço da gravata de setim negro, dando relevo á alvura espelhada dos collarinhos quebrados, offerecia a perfeição concisa que já me encantara no seu verso.
Não sei se as mulheres o considerariam bello. Eu achei-o um varão magnifico — dominando sobretudo por uma graça clara qae sabia de toda a sua força
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máscula. Era o sen viço que deslumbrava. A vida de tão varias e trabalhosas actividades não lhe cavara uma prega de fadiga. Parecia ter emergido, havia mo- mentos, assim de quinzena preta e barbeado, do fun- do vivo da Natureza. E apesar de Vidigal me ter con- tado que Fradi^ue festejara os «trinta e três» em Cintra, pela festa de S. Pedro, eu sentia n'aquelle corpo a robustez tenra e ágil de um ephebo, na in- fância do mundo grego. Só quando sorria ou quando olhava se surprehendiam immediatamente n'elle vinte séculos de litteratura.
Depois de lêr a carta, Fradique Mendes abria os braços, n'um gesto desolado e risonho, implorando a misericórdia de Vidigal. Tralava-se, como sempre, da Alfandega, fonte perenne das suas amarguras! Agora tinha lá encalhado um caixote, contendo nma múmia egypcia, . .
— Uma múmia. . . ?
Sim, perfeitamente, uma múmia histórica, o corpo veridico e venerável de Pentaour, escriba ritual do Templo de Amnon em Thebas, e chronista de Ramè- zes II. Mandára-o vir de Paris para dar a nma se- nhora da Legação d'Inglaterra, Lady Ross, sua amiga d'Athenas, que em plena frescura e plena ventura, col- leccionava antiguidades funerárias do Egypto e da Assy- ria. . . Mas, apesar d'esforços sagazes, não conseguia arrancar o defunto letrado aos armazéns da Alfan- dega—que elle enchera de confusão e de horror. Logo na primeira tarde, quando Pentaour desembar-
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cára, enfaixado denlro do seu caixão, a Alfandega aterrada avisou a policia. Depois, calmadas as des- confianças d'Qm crime, surgira uma insuperável dif- ficuldade: — que artigo da pauta se poderia applicar ao cadáver d'um liierogrammata do tempo de Ramè- zes? Elle Fradique suggerira o artigo que laxa o arenque defumado. Realmente, no fundo, o que é um arenque defumado senão a múmia, sem ligadu- ras e sem inscripções, d'um arenque que viveu? Ter sido peixe ou escriba nada importava para os efíeitos fiscaes. O que a Alfandega via diante de si era o corpo à'uma creatura, outr'ora palpitante, hoje seccada ao fumeiro. Se ella em vida nadava n'um cardume nas ondas do mar do Norte, ou se, nas margens do Nilo, ha quatro mil annos, arrolava as rezes de Amnon e commentava os capítulos de fim de dia — não era certamente da conta dos Poderes Públi- cos. Isto parecia-lbe lógico. Todavia as auctoridades da Alfandega continuavam a hesitar, coçando o quei- xo, diante do cofre sarapintado que encerrava tanto saber e tanta piedade I E agora n'aquella carta os amigos Pintos Bastos aconselhavam, como mais na- cional e mais rápido, que se arrancasse um empenha do Ministro da Fazenda para fazer sahir sem direi- tos o corpo augusto do escriba de Ramèzes. Ora este empenho, quem melhor para o alcançar que Marcos — esteio da Regeneração e seu Chrouista mu- sical?
Vidigal esfregava as mãos, illuminado. Ahi es-
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tava uma coisa bem digna d'elle, «bem catita» — sal- var do fisco a múmia «d'nm figurão pharaonico>l E arrebatou a carta dos Pintos Bastos, enfiou para a tipóia, gritou ao cocheiro a morada do Ministro, seu collega na Revolução de Setembro. Assim fiqoei só com Fradique — que me convidou a snbir aos seus quartos, e esperar Vidigal, bebendo uma «soda e li- mão».
Peia escada o poeta das Lapidarias alludiu ao tórrido calor d'agosto. E eu qne n'esse iotante, de- fronte do espelho no patamar, revistava, com um olhar furtivo, a linha da minha sobrecasaca e a fres- cura da minha ro^a — deixei estouvadamente escapar esta coisa hedionda :
— Sim, está d'escachar!
E ainda o torpe som não morrera, já uma afflic- ção me lacerava, por esta «chulice» de esquina de tabacaria assim atabalhoadamente lançada como um pingo de sebo sobre o supremo artista das Lapida- rias, o homem que conversara com Hugo á beira- mar!... Entrei no quarto atordoado, com bagas de suor na face. E debalde rebuscava desesperadamente uma outra phrase sobre o calor, bem trabalhada, toda scinlillante e nova I Nada ! Só me acudiam sordide- zes parallelas, em calão teimoso: — «é de rachar»! «está de ananazes» ! «derrete os untos» !. . . Atraves- sei alli uma d'essas angustias atrozes e grotescas, que, aos vinte annos, quando se começa a vida e a litteratura, vincam a alma — e jamais esquecem.
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Felizmente Fradique desapparecera por traz d'um reposteiro de alcova. Só, limpaodo o suor, conside- rando que altos pensadores se exprimem assim, com «ma simplicidade rude, — serenei. E á perturbação succedeu a curiosidade de descobrir em torno, pelo aposento, algum vestigio da originalidade intensa do homem que o habitava. Vi apenas cançadas cadeiras de reps azul-ferrete, um lustre embuçado em Inlle, € uma console, de altos pés dourados, entre as duas janellas que respiravana para o rio. Somente, sobre o mármore da console, e por meio dos livros que atulhavam uma velha mesa de pau preto, pousavam soberbos ramos de flores : e a um canto afofava-se um espaçoso divan, installado decerto por Fradique com colchões sobrepostos, que dois cobrejões orientaes revestiam de cores estridentes. Errava além d'isso em toda a sala um aroma desconhecido, que também me pareceu oriental, como feito de rosas de Smyrna, mescladas a um fio de canella e mangerona.
Fradique Mendes voltara de dentro, vestido com uma cabaia chineza I Cabaia de mandarim, de seda verde, bordada a flores de amendoeira — que me ma- ravilhou e que me intimidou. Vi então que tinha o cabello castanho-escuro, fino e levemente ondeado sobre a testa, mais polida e branca que os marfins de Normandia. E os olhos, banhados agora n'uma luz franca, não apresentavam aquella negrura pro- funda que eu comparara ao onyx, mas uma côr quente de tabaco escuro da Havana. Accendeu uma
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cigarrette, e ordenou a «soda e limão» a um creado surpreheDdeote, muito louro, muito grave, com uma pérola espetada na gravata, largas calças de xadrez verde e preto, e o peito florido por três cravos ama- rellos ! (Percebi que este servo magnifico se chamava Smith). O meu enleio crescia. Por Gm Fradique mur- murou, sorrindo, com sincera sympathia:
— Aquelle Marcos é uma flor!
Concordei, contei a velha estima que me pren- dia a Vidigal, desde o primeiro anno de Coimbra, dos nossos tempos estouvados de Coocerlina e Se- benta. Ebtão, alegremente, recordando Coimbra, Fra- dique perguntou-me pelo Pedro Penedo, pelo Paes, por outros lentes ainda do antigo typo fradesco e bruto; depois pelas tias Camelas, essas encantado- ras velhas, que escrupulosamente, através de lasci- vas gerações d'estudantes, tinham permanecido vir- gens, para poderem no céo, ao lado de Santa Cecí- lia, passar toda uma eternidade a tocar harpa... Era uma das suas memorias melhores de Coimbra essa taverna das tias Camelas, e as ceias desabala- das que custavam setenta reis, comidas ruidosamente na penumbra fumarenta das pipas, com o prato de sardinhas em cima dos joelhos, por entre temerosas contendas de Metaphysica e d'Arte. E que sardinhas! Que arte divina em frigir o peixe! Muitas vezes em Paris se lembrara das risadas, das illusões e dos pi- téus d'então ! . . .
Tudo isto vinha n'um tom muito moço, sincero.
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singelo — que eu mentalmente classificava de crystal- Uno. Elle eslirára-se no divan; eu ficara rente da mesa, onde um ramo de rosas se desfolhava ao ca- lor sobre volumes de Darwin e do Padre Manoel Ber- nardes. E então, dissipado o acanhamento, todo no appetite de revolver com aquelle homem genial iiléas de Lilteratura, sem me lembrar que, como Bacon, elle desejava esconder o seu génio poético, ou artista insatisfeito nunca reconheceria a obra imperfeita, — al- ludi ás Lapjdabias.
Fradiqne .Mendes tirou a cigarrette dos lábios para rir — com um riso que seria genuinamente galho- feiro, se de certo modo o não contradissesse um laivo de vermelhidão que lhe subira á face côr de leite. Depois declarou que a publicação d'esses ver- sos, com a sua assignaíura, fora uma perfidia do leviano Marcos. Elle não considerava assiynaveis es- ses pedaços de prosa rimada, que decalcara, havia quinze annos, na idade em que se imita, sobre ver- sos de Lecomte de Lisle, durante um verão de tra- balho e de fé, n'uma trapeira de Luxemburgo, juN gando-se a cada rima um ionovador genial...
Eu acudi affirraando, todo em chamma, que de- pois da obra de Baudelaire nada em Arte me im- pressionara como as Lapidarias I E ia lançar a mi- nha esplendida phrase, burilada n'essa noite com pa- ciente cuidado: — «A forma de v. ex.* é um már- more divino...» Mas Fradique deixara o divan e pousava em mim os olhos finos de onyx, com uma curiosidade que me verrumava:
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— Vejo então, disse elle, qae é um devoto do maganão das Flores do Mal!
Corei, áqnelle espantoso termo de maganão. E, muito grave, confessei que para mim Baudeiaire do- minava, á maneira d'um grande astro, logo abaixo d'Hiigo, na moderna Poesia. Então Fradique, sor- rindo paternalnoente, afiançou que bem cedo eu per- deria essa illusãol Baudeiaire (que elle conhecera) não era verdadeiramente um poeta. Poesia subenten- dia emoção: e Baudeiaire, tO'io intellectual, não pas- sava d' um psychologo, d'um analysta— um disseca- dor subtil d'estados mórbidos. As Flores do Mal con- tinham apenas resumos criíicos de torturas moraes que Baudeiaire muito finamente comprehendera, mas nunca pessoalmente sentira. A sua obra era como a d'um pathologista, cujo coração bate normal e sere- namente, emquanto descreve, á banca, n'uma folha de papel, pela erudição e observação accumuladas, as perturbações temerosas d'uma lesão cardíaca. Tanto assim que Baudeiaire compuzera primeiro em prosa as Flores do Mal — e só mais tarde, depois de recti- ficar a justeza das analyses, as passara a verso, la- boriosamente, com um diccionario de rimas!... De resto em França (accrescentou o estranho bomem) não havia poetas. A geouina expressão da clara in- telligencia franceza era a prosa. Os seus mais finos conhecedores prefeririam sempre os poetas cuja poe- sia se caracterisasse pela precisão, lucidez, sobriedade — que são qualidades de prosa; e um poeta torna- va-se tanto mais popular quanto mais visivelmente
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possoia o geoio de prosador. Boileau continuaria a ser um clássico e um immortal, quando já ningnem se lembrasse em FrançR do tumultuoso lyrismo de Hugo...
Dizia estas coisas enormes n'uma voz lenta, pe- netrante— que ia recortando os termos com a cer- teza e a perfeição d'um buril. E eu escutava, va- rado! Que um Boileau, um pedagogo, um lambão de corte, permanecesse nos cimos da Poesia Fran- ceza, com a sua Ode d tomada de Namur, a sua ca- belleira e a sua ferula, quando o nome do poeta da Lenda dos Séculos fosse como um suspiro do vento que passou — parecia-me uma d'essas affirmações, de rebuscada originalidade, com que se procura assom- brar os simples, e que eu mentalmente classificava de insolente. Tinha mil coisas, abundantes e esmaga- doras, a contestar : mas não ousava, por não poder apresental-as n'aquella forma translúcida e geomé- trica do poeta das Lapidarias. Essa cobardia, porém, e o esforço para reter os protestos do meu enthusias- mo pelos Mestres da minha mocidade, suffocava-me, enchia-me de mal-estar: e anciava só por abalar d'aquella sala onde, com tão bolorentas opiniões clás- sicas, tanta rosa nas jarras e todas as molles exhala- ções de canella e mangerona, — se respirava conjun- tamente um ar abafadiço de Serralho e de Academia.
Ao mesmo tempo julgava humilhante ter soltado apenas, n'aquella conversação cora o familiar de Maz- zini e d'Hugo, miúdos reparos sobre o Pedro Penedo
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e O carrascão das Cancelas. E na justa ambição de deslumbrar Fradique com um resumo critico, pro- Taodo as minhas finas letras, recorri á phrase, á la- pidada phrase, sobre a forma do seu verso. Sorrindo, retorcendo o buço, murmurei : — cc Em todo o caso a forma de v. ex.* é um mármore. . .» Subitamente, á porta que se abrira com estronlo, surgiu Vidigal:
— Tudo prompto! gritou. Despachei o defunto!
O ministro, homem de poesia e de eloquência^ interessára-se francamente por aquella múmia d'um «collega», e jurara logo poupar-lhe o opprobrio de ser itarifadâ como peixe salgado. S. ex.* linha mes- mo ajuntado: — «Não, senhor! não, senhor! Ha de entrar livremente, com todas as honras devidas a um clássico ! )) E logo de manhã Pentaour deixaria a Al- fandega, de tipóia!
Fradique riu d'aquella designação de clássico dada a um hierogrammata do tempo de Ramèzes — e Vidi- gal, triumphante, abancando ao piano, entoou com ardor a Grã-Duqueza. Então eu, tomado estranha- mente, sem razão, por um sentimento de inferiori- dade e de melancolia, estendi a mão para o chapéo. Fradique não me releve; mas os dois passos com que me acompanhou no corredor, o seu sorriso e o seu shake-hands, foram perfeitos. Apenas na rua, desabafei : — « Que pedante I »
Sim, mas inteiramente novo, dessemelhante de todos os homens que eu até ahi conhecera ! E á noite, na travessa do Guarda- Mór (occultando a escandalosa
A CORRESPONDÊNCIA DE FRADIQUE MENDKS Sí
apologia de Buileau, para nada d'elle mostrar imper- feito), espantei J. Teixeira d'Azevedo com um Fra- diqiie idealisado, em que tudo era irresistível, as idéas, o verbo, a cabaia de seda, a face marmórea de Lucrécio moço, o perfume que esparzia, a graça, a erudição e o gosto !
J. Teixeira d'Azevedo tinha o enthusiasmo diíTicil e lento em famegar. O tiomem deu-ihe apenas a im- pressão de ser postiço e theatral. Concordou no em- tanto que convinha ir estudar « um machinismo de <ipose montado com tanto luxo» !
Fomos ambos ao Central, dias depois, no fundo d'uma tipóia. Eu, engravatado em setim, de gardénia ao peito. J. Teixeira d'Azevedo, caracterisado de «Dió- genes do século xix», com um pavoroso cacete pon- teado de ferro, chapéo braguez orlado de sebo, ja- quetão encardido e remendado que lhe emprestara o creado, e grossos tamancos ruraes!. . . Tudo isto ar- ranjado com trabalho, com despeza, com intenso nojo, só para horrorisar Fradique — e diante d'esse ho- mem de sceptismo e de luxo,' altivamente affirmar, como democrata e como idealista, a grandeza moral do remendo e a philosophica austeridade da nódoa í Éramos assim em 1867!
Tudo perdido ! Perdida a minha gardénia, per- dida a immundicie estóica do meu camarada ! O snr. Fradique Mendes (disse o porteiro) partira na véspera n'um vapor que ia buscar bois a Marrocos.
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III
Alguns aoDOS passaram. Trabalhei, viajei. Melhor fui couheceado os homeos e a realidade das coisas, perdi a idolatria da Forma, não tornei a lêr Baudelai- re. Marcos ViJigal, que, através da Revolução de Se- tembro, trepara da Chronica Musical á Administra- ção Civil, governava a índia como Secretario Geral, de novo entregue, n'esses ócios asiáticos que lhe fa- zia o Estado, á Historia da Musica e á concertina : e levado assim esse grato amigo do Tejo para o Man- dovi eu não soubera mais do poeta das Lapidarias. Kunca porém se me apagara a lembrança do homem singular. Antes por vezes me succedia de repente vêr, claramente ver, n'um relevo quasi tangivel — a face ebúrnea e fresca, os olhos còr de tabaco insis- tentes e verrumando, o sorriso sinuoso e sceptico onde viviam vinte séculos de litteratura.
Em 1871 percorri o Egypto. Uma occasião, em Memphis, ou no sitio em que foi Memphis, navegava nas margens inundadas do Nilo, por entre palmeiraes que emergiam da agua, e reproduziam sobre um fundo radiante de luar oriental, o recolhimento e a solemnidade triste de longas arcarias de claustros.
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Era uma solidão, um vasto sileucio de terra morta, apenas docemente quebrado pela cadencia dos remos e pelo canto dolente do arraes... E eis que subita- mente (sem que recordação alguma evocasse até esta imagem) — vejo, nitidameote vejo, avançando com o barco, e com elle cortando as faxas de luz e som- bra, o quarto do Hotel Central, o grande divan de cores estridentes, e Fradiqiie, na sua cabaia de seda, celebrando por entre o fumo da cigarrelte a immor- talidade de Boileau! E eu mesmo já não estava no Oriente, nem em Mempbis, sobre as immoveis aguas do Nilo; mas lá, entre o reps azul, sobre o lustre embuçado em tulle, diante das duas janellas que miravam o Tejo, sentindo em baixo as carroças do ferragens rolarem para o Arsenal. Perdera porém o acanhamento que então me enleava. E, durante o tempo que assim remámos n'esta decoração pbarao- nica para a morada do Sheik de Abou-Kair, fui argu- mentando com o poeta das Lapidarias, e enunciando emfim, na defeza de Hugo e Baudelaire, as coisas finas e tremendas com que o devia ter emmudecido n'aquella tarde de agosto! O arraes cantava os ver- géis de Damasco. Eu berrava mentalmente : — « Mas veja V. ex.* nos Miseráveis a alta lição moral. . .»
Ao outro dia, que era o da festa do Beiram, re- colhi ao Cairo pela hora mais quente, quando os muezzins cantam a terceira oração. E ao apear da meu burro, diante do Hotel Sheperd, nos jardins do Ezbekieh, quem hei de eu avistar? Que homem,.
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cfeotre todos os homens, avistei eu no terraço, es- leodido n'uma comprida cadeira de vime, com as mãos cruzadas por traz da nuca, o Times esquecido sobre os joelhos, embebendo-se todo de calor e de luz? Fradiqoe Meodes.
Galguei os degraus do terraço, lançando o nome <ie Fradique, por entre um riso de transbordante pra- zer. Sem desarranjar a sua beatitode, elle descruzou apenas um braço que me estendeu com lentiiião. O encanto do seu acolhimento esteve na facilidade com que me reconheceu, sob as minhas lunetas azues, e o meu vasto cbapéo panamá :
— «Então como vai desde o Hotel Central?... Ha quanto tempo pelo Cairo?»
Teve ainda outras palavras indolentes e affaveis. ]N'um banco ao seu lado, todo eu sorria, limpando o pó que me empastara a face com uma espessura de mascara. Durante o curto e doce momento que alli conversámos, soube que Fradique chegara havia uma semana de Suez, vindo das margens do Euphrates e da Pérsia, por onde errara, como nos contos de fadas, um anno Inteiro e um dia; que tinha um debarieh, €om o lindo nome de Rosa das Aguas, já tripulado e amarrado á sua espera no cães de Boulak ; e que ia n'elle subir o Nilo até ao Alto Egypto, até á ÍNubia, ainda "para além de Ibsambul. . .
Todo o sol do Mar Vermelho e das planícies do Enphrates não lhe tostara a pelle láctea. Trazia, exa- ctamente como no Hotel Central, uma larga quinzena
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preta e ura coUeie branco fechado por botões de coral. E o laço da gravata de setioa negro represen- tava bem, n'aquella terra de roupagens soltas e ruti- lantes, a precisão formalista das idéas occidentaes.
Perguntou-me pela pachorrenta Lisboa, por Vi- digal que burocratisava eotre os palmares brahma- nicos... Depois, como eu continuava a esfregar o suor e o pó, aconselhou que me purificasse n'um banho turco, na piscina que fica ao pé da Mesquita de El-Monyed, e qae repousasse toda a tarde, para percorrermos á noite as illuminações do Beiram.
Mas em logar de descançar, depois do banho las- trai, tentei aiada, ao trote dôee de um burro, atra- vés da poeira quente do deserto libyco, visitar fora do Cairo as sepulturas dos K^ilifas. Quando á noite, na sala do Sheperd, me sentei diante da sopa de «rabo de boi», a fadiga tirára-me o animo de pas- mar para outras maravilhas musulmauas. O que me appetecia era o leito fresco, no meu quarto forrado de esteiras, onde tão romanticamente se ouviam can- tar no jardim as fontes entre os rosaes.
Fradique Mendes já estava jantando, n'uma mesa onde flammejava, entre as luzes, um ramo enorme de cactos. Ao seu lado pousava de leve, sobre um escabello mourisco, uma senhora vestida de branco, a quem eu só via a massa esplendida dos cabellos louros, e as costas, perfeitas e graciosas, como as d'Qma estatua de Praxiteles que usasse um coUete de Madame Mareei; defronte, n'ama cadeira de bra-
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Ç08, alastrava-se um homem gordo e molle, cuja vasta face, de barbas encaracoladas, cheia de força tranquilla como a de um Júpiter, eu já decerto en- contrara algures, ou viva ou em mármore. E cahi logo rj'esta preoccupação. Em que rua, em que mu- seu admirara eu já aquelle rosto olympico, onde ape- nas a fadiga do olhar, sob as pálpebras pesadas, trahia a argilla mortal?
Terminei por perguntar ao negro de Seneh que servia o macarrão. O selvagem escancarou um riso de faiscante alvura no ébano do carão redondo, e, através da mesa, grunhiu cora respeito : — Ce-/e- diêu... Justos céos 1 Le Dieul Intentaria o negra affirmar que aquelle homem de barbas encaracola- das era um Deus! — o Deus especial e conhecido que habitava o SheperdI Fora pois n'um altar, n'uma tela devota, que eu vira essa face, dilatada em ma- gestade pela absorpção perenne do incenso e da pre- ce? De novo interroguei o Nubio quando elle voltou erguendo nas mãos espalmadas uma travessa qufr fumegava. De novo o Nubio me atirou, em syllabas- claras, bem feridas, dissipando toda a incerteza— Ceáíí le Dieu!
Era um Deus! Sorri a esta idéa de litteratura — um Deus de rabona, jantando á mesa do Hotel Sheperd. E, pouco a pouco, da minha imaginação esfalfada foi-se evolando não sei que sonho, esparso e ténue, como o fumo que se eleva de uma bra- zeira meio apagada. Era sobre o Olympo, e os ve-
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lhos Deuses, e aquelle amigo de Fradique que se pa- recia com Júpiter. Os Deuses (scismava eu, colhendo garfadas lentas da salada de tomates) não tinham talvez morrido: e desde a chegada de S. Paulo à Grécia, viviam refugiados n'am valle da Laconia, ou- tra vez entregues, nos ócios que lhes impozera o Deus novo, ás suas occupaçõas píimordiaes de la- vradores e pastores. Somente, já pelo habito que os Deuses nunca perderam de imitar os homens, já para escapar aos ultrajes d'uma Ghristandade pudi- bunda, os olympicos abafavam sob saias e jaquetões o esplendor das nudezas que a Antiguidade adorara: e como tomavam outros costumes humanos, ora por necessidade (cada dia se torna mais difíkil ser Deus), ora por curiosidade (cada dia se torna mais divertido ser Homem), os Deuses iam lentamente consnmmando a sua humanisação. Já por vezes deixavam a doçura do seu valle bucólico ; e com bahús, com saccos de tapete, viajavam por distracção ou negócios, folhean- do os Guias Bedecker. Uns iam estudar nas cidades, entre a Civilisação, as maravilhas da Imprensa, do Parlamentarismo e do Gaz; outros, aconselhados peio eradito Hermes, cortavam a monotonia dos longos estios da Attica bebendo as aguas eni Vichy ou em Carlsbad: outros ainda, na saudade imperecível das omnipotencias passadas, peregrinavam até ás ruínas dos templos onde outr'ora lhes era offertado o mel e o sangue das rezes. Assim se tornava verosímil que aquelle homem, cuja face cheia de magestade e força
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serena reproduzia as feições com que Japiter se re- velou á Escola d'AtheDas— fosse na realidade Júpiter, o Tonante, o Fecundador, pai inesgotável dos Deu- ses, creador da Regra e da Ordem. Mas que motivo o traria alli, vestido de flinella azai, pelo Cairo, pelo Hotel Sheperd, comendo um macarrão que profana- doramente se prendia ás barbas divinas por onde a ambrósia escorrera ? Certamente o doce motivo que através da Antiguidade, em Céo e Terra, sempre ins- pirara os actos de Júpiter — do frascario e femeeiro Júpiter. O que o podia arrastar ao Cairo senão algu- ma saia^ esse desejo esplendidamente insaciável de deusas e de mulheres — que outr'ora tornava pensa- tivas as donzellas da Hellenia ao decorarem na Car- tilha Pagã as datas em que elle batera as azas de Cysne entre os joelhos de Leda, sacudira as pontas de touro entre os braços d'Europa, gottejára em pin- gos d'ouro sobre o seio de Danae, pulara em línguas de fogo até aos lábios d'Egina, e mesmo um dia, enojando Minerva e as damas sérias do Olympo, atra- vessara toda a Macedónia com uma escada ao hom- bro para trepar ao alto eirado da morena Semeie? Agora, evidentemente, viera ao Cairo passar umas férias sentimentaes, longe de Juno molle e conjugal, com aquella viçosa mulher, cujo basto irresistível provinha das artes conjuntas de Praxiteles e de Ma- dame Mareei. E ella, quem seria ella? A côr das suas tranças, a suave ondulação dos seus hombros, tudo indicava claramente uma d'essas deliciosas Nym-
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phas das Ilhas da lonia, que outr'ora os Diáconos Chrislãos expulsavam dos seus frescos regatos, para n'elles baplisar centuriões cachelicos e comidos de dividas, ou velhas matrooas com pêllo no queixo, trôpegas do iucessaote peregrinar aos aliares de Aphrodite. Nem elle nem ella porém podiam escon- der a sua origem divioa: através do vestido de cassa o corpo da Nympha irradiava uma claridade; e, at- teodeodo bem, vêr-se-hia a fronte marmórea de Jú- piter arfar em cadencia, no calmo esforço de perpe- tuamente conceber a Regra e a Ordem.
Mas Fradique? Como se achava alli Fradique, na intimidade dos Immortaes, bebendo com elles champagne Clicquot, ouvindo de perto a harmonia ineffavel da palavra de Jove? Fradique era um dos derradeiros crentes do Olympo, devotamente pros- trado diante da Forma, e transbordando de alegria pagã. Visitara a Laconia; fallava a lingua dos Deu- ses; recebia d'elles a inspiração. Nada mais conse- quente do que descobrir Júpiter no Cairo, e pren- der-se logo ao seu serviço, como cicerone, nas ter- ras barbaras de Allah. E certamente com elle e com a Nympha da lonia ia Fradique subir o Nilo, na Rosa das Aguas, até aos derrocados templos onde Júpiter poderia murmurar, pensativo, e indicando rui- nas d'aras com a ponta do guardasol : — «Abichei aqui muito incenso 1 »
Assim, através da salada de tomates, eu desenvol- via e coordenava estas imaginações — decidido a coa-
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Tertel-as n'um Conto para publicar era Lisboa na Gazeta de Portugal. Devia chamar-se A derradeira campanha de Júpiter: — e n'elle oblioba o fuudo erudito e pbaatasista para incrustar todas as notas de costumes e de paizagens coibidas na minba via- gem do Egypto, Somente, para dar ao conto um relevo de modernidade e de realismo picante, leva- ria a >'ympba das agua?, durante a jornada do Ni- lo, a enamorar-se de Fradique e a Irabir Júpiter! E eil-a aproveitando cada recanto de palmeiral e cada sombra lançada pelos velhos pilones d'Osiris para se pendurar do pescoço do poeta das Lapida- rias, murmurar-lhe coisas em grego mais doces que os versos de Hesiodo, deixar-lhe nas flanellas o seu aroma de ambrósia, e ser por todo esse valle do Nilo immensamente coclwnne — emquanto o Pai dos Deu- ses, cofiando as barbas encaracoladas, continuaria im- perturbavelmente a conceber a Ordem, supremo, augusto, perfeito, ancestral e cornudo I
Enthusiasmado, já construia a primeira linha do Conto: «Era no Cairo, nos jardins de Choubra, de- pois do jejum do Ramadan. ..» —quando vi Fradi- que adiantar-se para mim, com a sua chávena de café na mão. Júpiter também se erguera, cançada- mente. Pareceu-me um Deus pesado e molle, com um piin:ipio de obesidade, arrastando a perna tar- da, bem próprio para o ultrage que eu lhe prepara- va na Gazeta de Portugal. Ella porém tinha a har- monia, o aroma, o andar, a irradiação d'uma Deu-
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sal... Tão realmente divina que resolvi logo sub- stiluir-me a Fradique no Conto, ser eu o cicerone, « com os Immortaes vogar á vela e á sirga sobre o rio de immortalidade ! Janto á mioba face, não á <Íe Fradiqae, balbuciaria ella, desfallecendo de pai- xão entre os granitos sacerdotaes de Medinet-Abou, as coisas mais doces da Amhulogia! Ao menos, em sonho, realisava uma Iriumphal viagem a Tbebas. E faria pensar aos assiguautes da Gazeta de Portu- <)al : — «O que .elle por lá gozou 1 »
Fradique sentára-se, recebendo, de Jove e da Njmpha que passavam, um sorriso cuja doçura tam- bém me envolveu. Vivamente puxei a cadeira para o poeta das Lapidarias:
— Quem é este homem? Gonheço-lhe a cara...
— Naturalmente, de gravuras. . . É Gautierl Gautier I Theophilo Gaulier ! O grande Theo ! O
mestre impeccavel! Outro ardente enlevo da minha mocidade! Não me enganara pois inteiramente. Se não era um Oiympico — era pelo menos o derradeiro Pagão, conservando, n'estes tempos de abstracta e cinzenta intellectualidade, a religião verdadeira da Linha e da Côr! E esta intimidade de Fradique com o auctor de Mademoiselle de Maupin, com o velho pa- ladino de Hernâni, tornou-me logo mais precioso este compatriota que dava á nossa gasta Pátria um lustre ■tão original 1 Para saber se elle preferia aniz ou ge- nebra acariciei-lhe a manga com meiguice. E foi em mim um êxtase ruidoso, diante da sua agudeza,
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quando elle me aclarou o grunhir do negro de Se- neh. O que"eu tomara pelo aununcio d'uma presença divina significava apenas— c'e5í le deux! Gautier na hotel occupava o quarto numero dois. E, para o bár- baro, o plástico mestre do Romantismo era apeaas — o dois.
Contei-lhe então a minha phantasia pagã, o Conto que ia trabalhar, os perfeitos dias de paixão que lhe destinava na viagem para a Núbia. Pedi mesmo per- missão para lhe dedicar a Derradeir^a Campanha de Júpiter. Fradique sorriu, agradeceu. Desejaria bem (confessou elle) que essa fosse a realidade, porque Dão se podia encontrar mulher de mais genuiua bel- leza e de mais aguda seducção do que essa Nympha das aguas, que se chamava Jeanne Morlaix, e era comparsa dos Delassements-Comiques. Mas, para seu mal, a radiosa creatura estava caninamento namorada de um Sicard, corretor de fundos, que a trouxera ao Cairo, e que fora n'essa tarde, com banqueiros gre- gos, jantar aos jardins de Chonbra. . .
— Em todo o caso, accrescentou o originalíssimo homem, nunca esquecerei^ meu caro patrício, a sua encantadora intenção 1
Descartes, zombando, creio eu, da physica Epicu- riana ou atomista, falia algures das affeições produ- zidas pelos Atomes crochiis, átomos recurvos, em for- ma de colchete ou d'anzol, que se engancham invisi- Telmente de coração a coração, e formam essas ca- deias, resistentes como o bronze de Samothracia que.
A CORRESPONDEiNClA DE FRADIQUE MENDES 4S
para sempre ligam e fundem dois seres, n'uma cons- tância vencedora da Sorte e sobrevivente á Vida. Um qualquer nada provoca esse fatal ou providencial en- laçsmento d'atomos. Por vezes um olhar, como de- sastradamente em Verona succedeu a Romeu e Ju- lieta : por vezes o impulso de duas creanças para a mesmo fructo, n'iim vergel real, como na amizade clássica de Orestes e Pylades. Ora, por esta theoria (tão satisfatória como qualquer outra em Psychologia afifectiva), a esplendida aventura de amor, que eu tão generosamente reservara a Fradique na Ultima campanha de Júpiter^ seria a causa mysteriosa e iu- consciente, o nada que determinou a sua primeira sympathia para commigo, desenvolvida, solidificada depois em seis annos de intimidade intellectual.
Muitas vezes, no decurso da nossa convivência^ Fradique alludiu gratamente a essa minha encanta' dera intenção de lhe atar em torno do pescoço os braços de Jeanne Morlaix. Fora elle captivado pela sinuosa e poética homenagem que eu assim prestava ás suas seducções de homem? Não sei.— Mas, quan- do nos erguemos para ir vêr as illuminações da Beiram, Fradique Mendes, com um modo novo, aber- to, quente, quasi intimo, já me tratava por vossê.
As illuminações no Oriente consistem, como as do Minho, de tigellinhas de barro e de vidro onde arde um pavio ou uma mecha d'estopa. Mas a desço-
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medida profusão com que se prodigalisam as ligelli- Dhas (quando as paga o Paehá) torna as velhas cida- des meio arruinadas, que assim se enfeitam em lou- vor de Allab, realmente deslumbrantes — sobretudo para um occideotal besuntado de lilteratura, e incli- nado a vêr por toda a parte, reproduzidas no mo- derno Oriente, as muito lidas maravilhas d'essas Mil € uma noites que ninguém jamais leu.
Na celebração do Beiram (custeada pelo Khediva), as ligellinhas eram incooíaveis — e todas as linhas do Cairo, as mais quebradas e as mais fugidias, re- saltavam na escuridão, esplendidamente sublinhadas por um risco de luz. Longas fieiras de pontos reful- gentes marcavam a borda dos eirados; as portas abriam sob ferraduras de lumes; dos toldos peodia uma franja que faiscava; um brilho tremia, com a aragem, sobre cada folha d'arvore ; e os minaretes, que a Poesia Oriental classicamente compara desde séculos aos braços da Terra levantados para o Céo, ostentavam, como braços em noite de festa, um luxo de braceletes fulgindo na treva serena. Era (lembrei eu a Fradique) como se durante todo o dia tivesse cabido sobre a sórdida cidade uma grossa poeirada d'ouro, pousando em cada friso de moucharabieh e em cada grade de varandim, e agora rebrilhasse, com radiosa saliência, na negrura da noite calma.
Mas, para mim, a belleza especial e nova estava oa multidão festiva que atulhava as praças e os baza- res— e que Fradique, através do rumor e da poeira,
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^19 explicava como um livro de estampas. Com quanta tiTofuodidade e miudeza conhecia o Oriente este pa- ricio admirável! De todas aquellas gentes intensa- ente diversas desde a côr até ao traje — elle sabia raça, a historia, os costumes, o logar próprio na ivilisação musuimana. Devagar, abotoado n'um pa- letot de flanella, com um chicote de nervo (que é no Egypto o emblema de Auctoridade) entalado debaixo do braço, ia apontando, nomeando á minha curiosi- dade flammejante essas estranhas flguras, que eu comparava, rindo, ás d'uma mascarada fabulosa, ar- ranjada por um archeologo em noite de folia erudita para reproduzir as vc modas» dos Semitas e os seus «typos» através das idades: — aqui Fellahs, ridentes e ágeis na sua longa camisa de algodão azul; além Beduínos sombrios, movendo gravemente os pés en- trapados em ligaduras, com o pesado alfange de bainha escarlate pendurado no peito; mais longe Abadiehs, de grenha em forma de meda, eriçada de longas cerdas de porco-espinho que os coroam d'uma aureola negra. . . Estes, de porte insolente, com com- pridos bigodes esvoaçando ao vento, armas ricas re- luzindo nas cintas de seda, e curtos saiotes tufados e encanudados, eram Arnautas da Macedónia; aquelles, bellas estatuas gregas esculpidas em ébano, eram homens do Sennar; os outros, com a cabeça envolta .n'um lenço amarello cujas franjas immensas lhes fa- ziam uma romeira de fios d'ouro, eram cavalleiros do Hedjaz.., E quantos ainda elle me fazia distinguir
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e comprehender ! Judeus immundos, de caracoes- frisados; Coptas togados à maneira de senadores; soldados prelos do Darfoiír, com fardetas de linbc ennodoadas de poeira e sangue; Ulemas de turbante verde; Persas de mitra de feltro; mendigos de mes-] quita, cobertos de chagas; amanuenses turcos, pom- posos e anafados, de coliete bordado a ouro... Qaí sei eu ! Um Carnaval rutilante, onde a cada momeutí passavam, sacudidos pelo trote dos burros sobre ai bardas vermelhas, enormes saceos enfunados — que eram mulheres. E tola esta turba magnifica e rui- dosa se movia entre invocações a Allah, repiques de pandeiretas, gemidos estridentes partindo das cordaí das daurbakas, e cantos lentos — esses cantos árabes, d'uma voluptaosidade tão dolente e tão áspera que Fradique dizia passarem n'alma com uma « caricia rascante». Mas por vezes, entre o casario decrépito d rendilhado, surgia uma frontaria branca, casa rica de Sheik ou de Pachá, com a varanda em arcarias, por onde se avistavam lá dentro, n'nm silencio de harém, sedas colgantes, recamos d'ouro, um tremor de lumes no crystal dos lustres, formas airosas sol> véos claros... Então a multidão parava, emrnudecia, e de todos os lábios sabia um grande ah! languido e maravilhado.
Assim caminhávamos, quando ao sahir do Mou- jik, Fradique Mendes parou, e, muito gravemente; trocou com um moço pallido, de esplendidos olhos, o saiam — essa saudação oriental em que os dedos três
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lezes batem a testa, a boca e o coração. E como eu, lodo, lhe iQvejavâ acjaella intimidade com um « ho- |iem de taoici verde e de mitra persa » :
— E' um Ulema de Bagdad, disse Fradiqae, d'ama asta antiga, saperiormeote iotelligeate. . . Uma das 'fiersoQalidades mais fmas e mais sedactoras que en- ontrei na Pérsia!
Eatão, com a familiaridade que se ia entre nós ccentuando, perguntei a Fradique o que o detivera lissim na Pérsia um anno inteiro e um dia como nos íonlos de fadas. E Fradiqae, com todi a singeleza, íonfessou qae se demorara tanto nas raarges do Eu- 3hrates por se achar casualmente ligad) a um mo- irimenlo religioso que, desde 1849, tomava na Pérsia am desenvolvimento quasi triLimphal, e que se cha- mava o Babismo. Âttrahido para essa nova seita por uriosiiade critica, pira observar como nasce e se funda uma Religião, chegara pouco a pouco a ganhar pelo Bríbismo um interesse militante — não por admi- ração da doutrina, mas por veneração dos apóstolos. O Babismo (contou-me elle, seguindo por uma viella mais solitária e favorável ás confidencias) tivera por iniciador certo Mirza-Mohamed, um d'esses Messias que cada dia surgem na incessante fermentação reli- giosa do Oriente, onde a religião é a occupação supre- ma e querida da vida. Tendo conhecido os Evangelhos Christãos por contado com os Missionários; iniciado na pura tradição mosaista pelos judeas do Hiraz; sa- bedor profando do Guebrismo, a velha religião nacio-
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nal da Pérsia— Mirza-Mohamed amalgamara estas dou- trinas com uma concepção mais abstracta e pura do MahometiSTio, e dec!arára-se Bab. Em persa Bab quer dizer Porta. Elle era, pois, a porta — a única porta através da qual os homens poderiam jamais penetrar na absoluta Verdade. Mais litteralmente, Mirza-Moha- med apresentava-se como o grande porteiro, o ho- mem eleito entre todos pelo Senhor para abrir aos crentes a porta da Verdade — e portanto do Paraíso. Em resumo era um Messias, um Ghristo. Como tal atravessou a clássica evolução dos Messias: teve por primeiros discípulos, n'uma aldeia obscura, pastores e mulberes: soíFreu a sua tentação na montanha: cumpriu as penitencias expiadoras : pregoa parábo- las: escandalisou em Meca os doutores: e padeceu a sua Paixão, morrendo, não me lembro se degolado, se fuzilado, depois do jejum do Rhamadan, em Ta- briz.
Ora, dizia Fradique, no mundo musulmano ha duas divisões religiosas — os Sieds e os Sunis. Os Persas são Sieds, como os Turcos são Sunis. Estas differenças porém, no fundo, têm um caracter mais politico e de raça, do que theologico e de dogma; ainda que um fellah do Nilo desprezará sempre um persa do Euphrates como herético e sujo. A discor- dância resalta, mais viva e teimosa, logo que Sieds ou Sunis necessitem pronunciar-se perante uma nova interpretação de doutrina ou uma nova apparição de propheta. Assim o Babismo entre os Sieds, topara
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com nma hostilidade qne se avivou até á perseguição r — e isto desde logo iadicava que seria acolbido pelos Sunis cora deferência e sytnpathia.
Partindo d'esta idéa, Fradique, que era Bagdad se ligara familiarmente com ura dos mais vigorosos e auclorisados apóstolos do Babismo, Said-El-Souriz (a quem salvara o filho d'uma febre paludosa com applicações de Fruii-sali), suggerira-lhe um dia, conversando ambos no eirado sobre estes altos in- teresses espirituaes, a idéa de apoiar o Babismo nas raças agrícolas do valle do INilo e nas raças nómadas da Libya. Entre homens de seita Suni, o Babismo encontraria um campo fácil ás conversões ; e, pela tradicional marcha dos movimentos sectários, que no Oriente, como em toda a parte, sobem das massas sioceras do povo até ás classes cultas, talvez essa nova onda de emoção religiosa, partindo dos Fellahs^ e dos Beduínos, chegasse a penetrar no ensino de alguma das mesquitas do Cairo, sobretudo na mes- quita de El-Azhar, a grande Universidade do Oriente, onde os ulemas mais moços formam uma coborte da enthusiastas sempre disposta ás innovações e aos apos- tolados combatentes. Ganhando ahi aucíoridade theo- logica, e litterariamente polido, o Babismo poderia então atacar com vantagem as velhas fortalezas do Musulmanismo dogmático. Esta idéa, penetrara pro- fundamente em Said-El-Souriz. Aquelle moço pallido, com quem elle trocara o saiam, fora logo mandado como emissário babista a Medinet-Abou (a antiga
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Thebas), para soaJar o Sheik Ali-Husseia, homem de decisiva inílieacia em todo o valle do Nilo pelo seu sabcT e pela sua virtude: e elle, Fradique, não tendo agora no Occidente occupações attractivas, cheio de curiosidade por este pittoresco Advento, partia também para Tnebas, devendo encontrar-se cjm o babista, á lua miogoante, em Beni-Saueíl, no Nilo...
Não recordo, depois de tantos aonos, se estes eram os factos certos. Sò sei que as revelações de Fradique, lançadas assim através do Cairo em festa, me impressionaram iadizivelmente. A medida que elie fallava do Bab, d'essa missão apostólica ao velho Sheik de Thebas, de uma outra fò surgindo no mundo musulmano com o seu cortejo de martyrio? e d'ex- tasis, da possível fundação de um império Babista — o homem tomava aos meus olhos proporções gran- diosas. Não conhecera jamais ninguém envolvido em coisas tão altas: e sentia-me ao mesmo tempo orgu- lhoso e aterrado de receber este segredo sublime. Outra não seria minha commoção, se, nas vésperas de S. Paulo embarcar para a Grécia, a levar a Pala- vra aos gentílicos, eu tivesse com elle passeado pelas ruas estreitas de Seleucia, ouvindo-lhe as esperanças e os sonhos!
Assim conversando, penetrámos no adro da mes- quita de El-Azhar onde mais fulgurante e estridente tumultuava a fasta do Beiram. Mas já não me pren- diam as surprezas d'aquelle arraial musulmano — nem almées dançando entre brilhos de vermelho e
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d'ouro; nem poetas do deserto recitando as façanhas d'Antar; nem Derviches, sob as suas tendas de linho, uivando em cadencia os louvores d'Aliah... Calado, invadido pelo pensamento do Bab, revolvia commigo o confuso desejo de me aventurar n'essa campanha espiritual 1 Se eu partisse para Thebas com Fradi- que?., . Porque não? Tinha a mocidade, tinha o en- thusiasmo. Mais viril e nobre seria encetar no Oriente uma carreira de evangelista, que banalmente recolher á banal Lisboa, a escrevinhar liras de papel, sob um bico de gaz, na Gazeta de Portugal! E pouco a pouco d'este desejo, como d'uma agua que ferve, ia subindo o vapor lento d'uma visão. Via-me discípulo do Bab — recebendo n'essa noite, do ulema de Ba- gdad, a iniciação da Verdade. E partia logo a pregar, a espalhar o verbo babista. Onde iria? A Portugal certamente, levando de preferencia a salvação ás al- mas que me eram mais caras. Como S. Paulo, em- barcava n'uma galera: as tormentas assaltavam a mi- nha proa apostólica : a imagem do Bab apparecia-me sobre as aguas, e o seu sereno olhar enchia minha alma de fortaleza indomável. Um dia, por fim, avis- tava terra, e na manhã clara sulcava o claro Tejo, onde ha tantos séculos não entra um enviado de Deus. Logo de longe lançava uma injuria ás igrejas de Lisboa, construcções d'uma Fé vetusta e menos pura. Desembarcava. E, abandonando as minhas ba- gagens, n'um desprendimento já divino de bens ainda terrestres, galgava aquella bemdita rua do Alecrim,
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e em meio do Loreto, á hora em que os Directores Geraes sobem devagar da Arcada, abria os braços e bradava: — «Eu sou a Porta! d
Não mergulhei no Apostolado babista — mas suc- ceden que, enlevado n'estas phaotasmagorias, me perdi de Fradique. E não sabia o caminho do Hotel Sheperd, — nem, para d'elle me informar, outros ter- mos úteis, em srabe. além de agua e amor! Foram angustiosos momentos em que farejei estooteado pelo largo de El-Azhar, tropeçando nos fogareiros onde fervia o café, esbarrando inconsideradamente contra rudes beduinos armados. Já por sobre a turba atira- va, aos brados, o nome de Fradique — quando topei com elle olhaudo placidamente uma almée que dan- çava . . .
Mas seguiu logo, eocolhendo os hombros. >'em me permittiu adiante admirar um poeta, que, em meio de fellahs pasmados e de Moghrebinos arrima- dos ás lanças, lia, n'uma toada langorosa e triste, ti- ras de papel ensebado. A Dança e a Poesia, affirmava Fradique, as duas grandes artes orientaes, iam em misérrima decadência. N'uma e outra se tinham per- dido as tradições do estylo puro. As almées, perver- tidas pela inflaencia dos casinos do Ezbequieh onde se perneia o can-can — já polluiam a graça das velhas danças árabes, atirando a perna pelos ares á moda vil de Marselha! E na Poesia triumphava a mesma banalidade, mesclada de extravagância. As formas delicadas do classicismo persa nem se respeitavam.
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nem quasi se conheciam; a fjote da imagioação sec- cava entre os musulmanos; e a pobre Poesia Orien- tal, tratando themas vetustos com uma emphase pre- ciosa, descambara, como a nossa, n'am Parnasianis- mo bárbaro. . .
— De sorte, murmurei, que o Oriente. . .
— Eslá tão medíocre como o Occideute.
E recolhemos ao hotel, devagar, emquanto Fra- dique, findando o charuto, me contava que o espirito oriental, hoje, vive só da actividade philosophica, agi- tado cada manhã por uma nova e complicada conce- pção da Moral, que lhe offerecem os Lógicos dos ba- zares e os Metaphysicos do deserto. . .
Ao outro dia acompanhei FraJique a Boulak, onde elle ia embarcar para o Alto Egypto. O sen debarieh esperava, amarrado á estacaria, rente das casas do Velho Cairo entre barcas d'Assouan, carregadas de lentilha e de cana doce. O sol mergulhava nas areias libycas: e no alto, o céo adormecia, sem uma som- bra, sem uma nuvem, puro em toda a saa profundi- dade como a alma d'um justo. Uma fila de mulheres coptas, com o cântaro amarello pousado no hombro, descia cantando para a agua do Nilo, bemdita entre todas as aguas. E os ibis, antes de recolher aos ni- nhos, vinham, como no tempo em que eram Deuses, lançar por sobre os eirados, com um bater d'azas contentes, a benção crepuscular.
Baixei, atraz de Fradique, ao salão do debarieh, envidraçado, estofado, com armas penduradas para
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as manhãs de caça, e ramas de livros para as sestas de estudo e de calma quando lentamente se navega á sirga. Depois, durante momentos, no convés, con- templámos silenciosamente aqaellas margens que, atra- vés das compridas idades, têm feito o enlevo de todos os homens, por todos sentirem que n'ellas a vida é cheia de bens maiores e de doçura suprema. Quantos, desde os rudes Pastores que arrazaram Thanis, aqui pararam como nós, alongando para estas aguas, para estes céos, olhos cubiçosos, extáticos ou saudosos: Reis de Judá, Reis de Assyria, Reis da Pérsia; os Ptolomeus magníficos; Prefeitos de Roma e Prefeitos de Byzancio; Amrou enviado de Mahoraet, S. Luiz enviado de Christo; Alexandre-o-Grande sonhando o império do Oriente, Bonaparte retomando o immenso sonho; e ainda os que vieram só para contar da terra adorável, desde o loquaz Heródoto até ao pri- meiro Romântico, o homem pallido de grande fose que disse as dores de «Réné» ! Bem conhecida é ella, a paizagem divina e sem igual. O Nilo corre, paternal e fecundo. Para além verdejam, sob o vôo das pombas, os jardins e os pomares de Rhodah. Mais longe as palmeiras de Giseh, finas e como de bronze sobre o ouro da tarde, abrigam aldeias que têm a simplicidade de ninhos. Á orla do deserto, er- gnem-se, no orgulho da sua eternidade, as três Pyra- mides. Apenas isto — e para sempre a alma fica presa e lembrando, e para viver n'esta suavidade e n'esta belleza os povos travam entre si longas guerras.
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Mas a hora chegara: abracei Fradique com sin- gular emoção. A vela fora içada á briza suave que arripiava a folhagem das mimosas. Á proa o arraes, espalmando as mãos para o céo, clamou: — «Em no- me de Allah que nos leve, clemente e misericordio- so!» Ao redor, d'outras barcas, vozes lentas murmu- raram:— «Em nome de Allah que vos leve!» Um dos remadores, sentado á borda, feriu as cordas da dourbaka, outro tomou uma flauta de barro. E entre bênçãos e cantos a vasta barca fendeu as aguas sa- gradas, levando para Thebas o meu incomparável amigo.
IV
Durante annos não tornei a encontrar Fradique Mendes, que concentrara as suas jornadas dentro da Europa Occidental — emquanto eu errava pela Ame- rica, pelas Antilhas, pelas republicas do golfo do Mé- xico. E quando a minha vida emâm se aquietou n'um velho condado rural de Inglaterra, Fradique, reto- mado por essa «bisbilhotice ethnographica» a que elle allude n'umâ carta a Oliveira Martins, começava a sua longa viagem ao Brazil, aos Pampas, ao Chili e á Pa- ta goní a.
Mas o fio de sympathia, que nos unira no Cairo,
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não se partiu; nem nós, apesar de tão ténue, o dei- xámos perder por entre os interesses mais fortes das nossas fortunas desencontradas. Quasi todos os ires mezes trocávamos uma carta — cinco ou seis folhas de papel que eu tumultuosamente atulhava de ima- gens G impressões, e que Fradique miudameote en- chia de idéas e de factos. Além d'isto, eu sabia de Fradiqne por alguns dos meus camaradas, com quem, durante uma residência mais intima em Lisboa, do outono de 1875 ao verão de 1876, elie creára amiza- des onde todos encontraram proveito intellectual e encanto.
Todos, apesar das dissimilhanças de temperamen- tos ou das maneiras differentes de conceber a vida — tinham como eu sentido a seducção d'aquelle ho- mem adorável. D'elle me escrevia em novembro de 1877 o auctor do Portugal Contemporâneo: — «Cá tencontrei o teu Fradique, que considero o portuguez «mais interessante do século xix. Tem curiosas pa- «recenças com Descartes! E' a mesma paixão das «viagens, que levava o philosopho a fechar os livros «apara estudar o grande livro do Mundo»; a mesma «attracção pelo luxo e pelo ruido, que em Descartes «se traduzia pelo gosto de frequentar as «cortes e os «exércitos»; o mesmo amor do mysterio, e das subi- «tas desapparições ; a mesma vaidade, nunca confes- «sada, mas intensa, do nascimento e da fidalguia ; a «mesma coragem serena ; a mesma singular mistura «de instinctos romanescos e de razão exacta, de phan-
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«tasia e de geometria. Com tudo isto falta-lhe na vida «um fim sério e supremo, que estas qualidades, em «si excelleotes, coucorressem a realisar. E receio que «em logar do Discurso sobre e Melhodo venha só a «deixar um vaudemlk-» . Ramalbo Ortigão, pouco tem- po depois, dizia d'elle n'uma carta carinhosa: — «Fra- «dique Mendes é o mais completo, mais acabado pro- «ducto da civilisação em que me tem sido dado em- «beber os olhos. Ninguém está mais superiormente «apetrechado para triumphar na Arte e na Vida. A «rosa da sua botoeira é sempre a mais fresca, como «a idéa do seu espirito é sempre a mais original. «Marcha cinco léguas sem parar, bate ao remo os «melhores remadores de Oxford, mette-se sósinho ao «deserto a caçar o tigre, arremete com um chicote «na mão contra um troço de lanças abyssinias: — e á «noite n'uma sala, com a sua casaca do Cook, uma «pérola negra no esplendor do peitilho, sorri ás mu- «Iheres com o encanto e o prestigio com que sorrira «á fadiga, ao perigo e á morte. Faz armas como o «cavalleiro de Saint-Georges, e possue as noções mais «novas e as mais certas sobre Physica, sobre Astro- «nomia, sobre Phylologia e sobre Metaphysica. E' um «ensino, uma lição de alto gosto, vêl-o no seu quarto, «Qa vida intima de gentleman em viagem, entre as «suas malas de couro da Rússia, as grandes escovas «de prata lavrada, as cabaias de seda, as carabinas «de Winchester, preparando-se, escolhendo um per- «fume, bebendo goles de chá que lhe manda o Grau-
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«Dnqne Vladimir, e dictando a um creado de calção, «mais veoeravelmenle correcto qne um mordomo á& «Luiz XIV, telegrammas que vão levar noticias suas «aos boudoirs de Paris e de Londres. E depois de «tudo isto fecha a sua porta ao mundo — e lê So- «phocles no original».
O poeta da Morte de D. João e da Musa em Fe- rias chamava-lhe «um Saint-Beuve encadernado em Alcides». E explicava assim, n'uma carta d'esse tem- po que conservo, a sua apparição no mundo: «Deus «um dia agarrou n'um bocado de Henri Heine, n'ou- «tro de Chateaubriand, n'outro de Brummel, em pe- «daços ardentes d'aventureiros da Renascença, e em «fragmentos reseqnidos de sábios do Instituto á& «França, entornoií-lhe por cima champagne e tinta de «imprensa, amassou tudo nas suas mãos omnipoten- «tes, modelou á pressa Fradique, e arrojando-o á «Terra disse: Vai, e vesle-te no Poole!» Emfim Car- los Mayer, lamentando como Oliveira Martins que ás múltiplas e fortes aptidões de Fradique faltasse coor- denação e convergência para um fim superior, deu um dia sobre a personalidade do meu amigo um re- sumo sagaz e profundo: «O cérebro de Fradique «está admiravelmente construído e mobilado. Sò lhe «falta uma idéa que o alugue, para viver e governar «lá dentro. Fradique é um génio com escriptos!»
Também Fradique, n'esse inverno, conheceu o pensador das Odes Modernas, de quem, n'uma das suas cartas a Oliveira Martins, falia com tanta ele-
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yação e carinho. E o ultimo companheiro da minha mocidade que se relacionoa com o antigo poeta das Lapidarias foi J. Teixeira d' Azevedo, no verão de 1877, em Cintra, na quinta da Saragoça, onde Fra- dique viera repousar da sua jornada ao Brazil e ás republicas do Pacifico. Tinham ahi conversado muito, 3 divergido sempre. J. Teixeira d'Azevedo, sendo um nervoso e um apaixonado, sentia uma insuperável an- tipathia pelo que elle chamava o lymphatismo critico de Fradique. Homem todo de emoção não se podia fundir intellectualmente com aquelle homem todo de analyse. O extenso saber de Fradique também não o impressionava. «4s noções d'esse guapo erudito (es- crevia elle em 1879) «são bocados do Larousse dilui- «dos em agua de Colónia». E emfim certos requintes de Fradique (escovas de prata e camisas de seda), a sua voz mordente recortando o verbo com perfeição 8 preciosidade, o seu habito de beber champagne com soda-water, outros traços ainda, causavam uma irri- tação quasi physica ao meu velho camarada da Tra- vessa do Gnarda-Mór. Confessava porém, como Oli- veira Martins, que Fradique era o portuguez mais interessante e mais suggestivo do século xix. E cor- respondia-se regularmente com elle — mas para o con- tradizer com acriffionia.
Em 1880 (nove annos depois da minha peregrina- ção no Oriente), passei em Paris a semana da Pas- choa. Uma noite, depois da Opera, fui cear solitaria- mente ao Bignon. Tinha encetado as ostras e uma
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chronii^a do Temps, quando por traz do jornal que eu encostara á garrafa assomou uma larga mancba clara, que era um collete, um peitilho, uma gravata, uma face, tudo de incomparável brancura. £ uma voz muita serena murmurou: «Separámo-nos ha annos no cães de Boulak...» Ergui-me com um grito, Fradi- que com um sorriso; — e o maiire-d'hotd recuou as- sombrado diante da meridional e ruidosa effusão do meu abraço. D'essa noite em Paris datou verdadeira- mente a nossa intimidade intellectual — que em oito annos, sempre igual e sempre certa, não teve uma inlermissão, nem uma sombra que lhe toldasse a pu- reza.
Determinadamente lhe chamo intellectual, porque esta intimidade nunca passou além das coisas do es- pirito. Nas alegres temporadas que com elle convivi em Paris, em Londres e em Lisboa, de 1880 a 1887, na nossa copiosa correspondência d'esses annos pri- vei sempre, sem reserva, com a intelligencia de Fra- dique — e interrompidamente asáisti e me misturei á sua vida pensante : nunca porém penetrei na sua vida affectiva de sentimento e de coração. Nem, na verda- de, me atormentou a curiosidade de a conhecer — tal- vez por sentir que a rara originalidade de Fradique se concentrava toda no sèr pensante, e que o outro, o sèr sensível, feito da banal argilla humana, repelia sem especial relevo as costumadas fragilidades da ar- gilla. De resto, desde essa noite de Paschoa em Paris que iniciou as nossas relações, nós conservámos sem-
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pre o habito especial, um pouco altivo, talvez estreito, le DOS coQsiderarmos dois puros espirites. Se eu en- tão concebesse uma Philosophia original, ou prepa- rasse os mandamentos d'uma nova Religião, oa sur- ripiasse á Natureza distrahida uma das suas secretas Leis — de preferencia escolheria Fradique como confi- dente d'esta actividade espiritual; mas nunca, na or- 3em do Sentimento, iria a elle com a confidencia Tuma esperança ou d'uma desillusão. E Fiadii]ue gualmente manteve commigo esta attitude de inacces- sivel recato — não se manifestando nunca aos meus }lhos senão na sua funcção intellectual.
Muito bem me lembro eu d'uma resplandecente manhã de maio em que atravessávamos, conversando por sob os castanheiros em flor, o jardim das Tulhe- rias. Fradique, que se encostara ao meu braço, vinha vagarosamente desenvolvendo a idéa de que a extre- ma democratisação da Sciencia, o seu universal eilli- mitado derramamento através das plebes, era o gran- ie erro da nossa civilisação, que com elle preparava para bem cedo a sua catastrophe moral... De re- pente, ao transpormos a grade para a praça da Con- jordia, o Philosopho que assim lançava, por entre as ;enras verduras de maio, estas predicções de desastre í^de fim — estaca, emmudece ! Diante de nós, ao trote ino d'uma egoa de luxo, passara vivamente, para os ados da rua Royale, um coupè onde entrevi, na pe- lumbra dos setins que o forravam, uns cabellos còr ie mel. Vivamente também, Fradique sacode o meu
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braço, balbucia um «adeus!», acena a um fiacre, e desapparece ao galope arquejante da pileca para os lados do cães d'Orsay. «Mulher!», pensei eu. Era, com eíTeito, a mulher e o seu tormento ; e como se deprehende d'uma carta a Madame de Jooarre (datada de «Maio, sabbado», e começando: «Hontem philoso- phava com um amigo no jardim das Tulherias. . .i' Fradique corria n'esse fiacre a uma desillusão benc rude e mortificante. Ora n'essa tarde, ao crepnscu lo, fai (como combinara) buscar Fradique á rua d( Varennes, ao velho palácio dos Tredennes, onde elh installára desde o Natal os seus aposentos com ua luxo tão nobre e tão sóbrio. Apenas entrei na sal: que denominávamos a «Heróica», porque a revestian quatro tapeçarias de Luca Cornelio contando os Trai balhos de Hercules, Fradique deixa a janella d'ond'r olhava o jardim já esbatido em sombra, vem para miu ' serenamente, com as mãos enterradas nos bolso d'uma quinzena de seda. E, como se desde ess manhã nenhum outro cuidado o absorvesse senão seu thema do jardim das Tulherias :
— Não lhe acabei de dizer ha pouco ... A Scien cia, meu caro, tem de ser recolhida como outr'or aos Santuários. Não ha outro meio de nos salvar è anarchia moral. Tem de ser recolhida aos Santuário e entregue a um sacro collegio intellectual que guarde, que a defenda contra as curiosidades das pl| bes. . . Ha a fazer com esta idéa um programma pa as gerações novas!
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Talvez na face, se eu tivesse reparado, encoa-
-asse restos de pallidez e de emoção: mas o tom
ra simples, firme, d'um critico genuinamente occu-
ado na deducção do seu conceito. Outro homem
ue, como aquelle, tivesse soffrido horas antes uma
esilUisão tão mortificante e rude, murmuraria ao
nenos, n'um desafogo genérico e impessoal: — «Ah,
imigo, que estúpida é a vidai» Elle fallou da Scieu-
lia e das Plebes, — desenrolando determinadamente
liante de mim, ou impondo talvez a si mesmo, os
•aciocinios do seu cérebro, para que os meus olhos
.ião penetrassem de leve, ou os seus não se detives-
em demais, nas amarguras do seu coração.
N'uma carta a Oliveira Martins, de 1883, Pra- tique diz: — «O homem, como os antigos reis do lOriente, não se deve mostrar aos seus semelhan- íttes senão única e serenamente occupado no offjcio «de reinar — isto é, de pensar». Esta regra, d'um orgulho apenas permissivel a um Spinosa ou a um Kant, dirigia severamente a sua conducta. Pelo me- nos commigo assim se comportou iramutavelmente, através da nossa activa convivência, não se abrindo, não se oíTerecendo todo, senão nas funcções da Intel- ligencia. Por isso talvez, mais que nenhum outro ho- mem, elle exerceu sobre mim império e seducção.
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O que impressionava logo na Inlelligencia de Fra dique, ou antes na sua maneira de se exercer, era a suprema liberdade junta á suprema audácia. Não co- nheci jamais espirito tão impermeável á tyrannia ou á insinuação das «idéas feitas»: e decerto nunca um homem traduziu o seu pensar original e próprio com mais calmo e soberbo desassombro. «Apesar de trinta «séculos de geometria me affirmarem (diz elle n'uma carta a J. Teixeira d'Azevedo) «que a linha recta é a €mais curta distancia entre dois pontos, se eu achasse «que, para subir da porta do Hotel Universal á porta «da Casa Haveneza, me sahia mais directo e breve ro- «dear pelo bairro de S. Martinho e pelos altos da «Graça, declararia logo á secular geometria — que a «distancia mais curta entre dois pontos é uma curva «vadia e delirante 1» Esta independência da Razão, que Fradique assim apregoa com desordenada Phan- tasia, constitne uma qualidade rara: — mas o animo de a affirmar intemeratamente diante da magestosa Tradição, da Regra, e das conclusões oraculares dos Mestres, é já uma virtude, e raríssima, de radiosa excepção I
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Fradique (n'outra carta a J. Teixeira d'Azevedo) âlla d'iim polaco, G. Cornuski, professor e critico, jue escrevia na Revista Suissa, e que (diz Fradique) I constantemente sentia o sen gosto, mnito pessoal e imnito decidido, rebellar-se contra obras de Littera- itora e de Arte que a unanimidade critica, desde se- xcnlos, tem consagrado como magistraes — a Gerusa- úemme TJberata do Tasso, as telas do Ticiano, as «(tragedias de Racine, as orações de Bossuet, os nossos KÍAisiadas, e outros monumentos canonizados. Mas, «sempre que a sua probidade de Professor e de Cri- «tico Ibe impunha a proclamação da verdade, este «homem robusto, sanguíneo, que heroicamente se ba- «terá em duas insurreições, tremia, pensava : — «Não 1 «Forque será o meu critério mais seguro que o de «tão Onos eQtendimentos através dos tempos? Quem «sabe? Talvez n'essas obras exista a sublimidade — «e só no meu espirito a impotência de a compreheo- «der». E o desgraçado Cornuski, com a alma mais «triste que um crepúsculo d'outono, continuava dian- «te dos coros da Athalie e das nudezes do Ticiano, a murmurar desconsoladamente: — «Como é bello!»
Raros soífrem estas angustias criticas do des- ditoso Cornuski. Todos porém, com risonha incon- sciência, praticam o seu servilismo intellectual. Já, com effeito, porque o nosso espirito não possua a vi- ril coragem de affrontar a auctoridade d'aquelles a quem tradicionalmente attribue um critério mais firme e um saber mais alto ; já porque as idéas estabeleci-
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das, fluctuaodo diffusamente na nossa memoria, de- pois de leituras e conversas, nos pareçam ser as^ nossas próprias; já porque a suggestão d'esses con- ceitos se imponha e nos leve subtilmente a concluir em concordância com elles — a la menta veljrerdade é que hoje todos nós servilmente tendemos a pensar e sentir como antes de nós e em torno de nós já se sentiu ou pensou.
«O homem do século xix, o Europeu, porque só «elle é essencialmente do século xix (diz Fradique n'uma carta a Carlos Mayer), «vive dentro d'uma pal- «lida e morna infecção de banalidade, causada pelos «quarenta mil volumes que todos os annos, suando e «gemendo, a loglaterra, a França e a Allemaoha depo- «sitam ás esquiuas, e em que intermioavelmente e «monotonamente reproduzem, com um ou outro arre- 0 bique sobreposto, as quatro idéas e as quatro impres- «sões legadas pela Antiguidade e pela Renascença. O «Estado por meio das suas escolas canalisa esta in- «fecção. A isto, oh Garulus, se chama educar! A «creaDça, desde a sua primeira «Selecta de Leitura» «ainda mal soletrada, começa a absorver esta camada «do Logar-Commum — camada que depois todos os «dias, através da vida, o Jornal, a Revista, o Folhe- «to, o Livro lhe vão atochando no espirito até lh'o «empastarem todo em banalidade, e lh'o tornarem «tão inútil para a producção como um solo cuja fer- «tilidade nativa morreu sub a areia e pedregulho de «que foi barbaramente alastrado. Para que um Euro-
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•«peu lograsse aioda hoje ter algumas idéas novas, «de viçosa originalidade, seria necessário que se in- «ternasse no Deserto ou nos Pampas; e ahi esperasse «pacieutemente que os sopros vivos da Natureza, ba- «tendo-lhe a Iritelligeucia e d'ella pouco a pouco var- «vrendo os detritos de viote séculos de Litteratura, «lhe refizessem uma virgindade. Por isso eu te affir- «mo, oh Carolus Mayerensis, que a latelligencia, que «altivamente pretenda readquirir a divioa potencia <(de gerar, deve ir curar-se da Civilisação litteraria <(por meio d'uma residência tónica, durante dois an- xnos, entre os Hottentotes e os Patagonios. A Pata- «gonia opera sobre o lutellecto como Vichy sobre o «tigado — desobstruindo-o, e permittindo-lhe o são «exercício da funcção naturaU Depois de dois annos «de vida selvagem, entre o Hottentote nú movendo-se <(oa plenitude lógica do Insiiocto, — que restará ao «civilisado de todas as suas idéas sobre o Progresso, «a Moral, a Religião, a Industria, a Economia Poli- «tica, a Sociedade e a Arte? Farrapos, Os pendentes «farrapos que lhe restarão das pantalonas ê da quin- «zena que trouxe da Europa, depois de vinte me- «zes de matagal e de brejo. E não possuindo em ((torno de si Livros e Revistas que Lhe renovem «uma provisão de «idéas feitas», nem um benéfico «Nunes Algibebe que lhe forneça uma outra andai- «na de «fato feito» — o Europeu irá insensivelmente «regressando á nobreza do estado primitivo, nudez «do corpo e originalidade da alma. Quando de lá vol-
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«tar é um Adão forte e puro, virgem de lilteratara, «com o craoeo limpo de todos os cooceitos e todas «as noções amontoadas desde Aristóteles, podendo «proceder soberbamente a um exame inédito das coi- «sas humauas. Carlos, espirito que distillas e^ptriíos, «queres remergulhar nas Origens e vir commigo á «inspiradora ílottentocia? Lá, livres e nús, estirados «ao sol entre a palmeira e o regato que tutelarmente «nos darão o sustento do corpo, com a nossa lança «forte cravada na relva, e mulheres ao lado verten- cdo-nos D'um canto doce a porção de poesia e de so- «nho qae a alma precisa — deixaremos livremente as «ilhargas crestadas estalarem-nos de riso á idéa das «grandes Philosophias, e das grandes Moraes, e das «grandes Economias, e das grandes Criticas, e das «grandes Pilhérias que vão por essa Europa, onde den- «sos formigueiros de chapéos altos se atropellam, es- «í tonteados pelas superstições da civilisação, pela illu- «são do ouro, pelo pedantismo das sciencias, pelas iimistiíicações dos reformadores, pela escravidão da «rotina, e pela estúpida admiração de si mesmos! . . .» Assim diz Fradique. Ora este « exame inédito das coisas humanas», só possível, segundo o poeta das Lapidarias, ao Adão renovado que regressasse da Palagouia com o espirito escarolado do pó 0 do lixo de longos annos de Lilteralura — teotou-o elle, sem deixar os muros clássicos da rua de Varennes, com incomparável vigor e sinceridade. E n'isto mos- trava intrepidez moral. No mundo a que irresistível-
A CORRESPONDÊNCIA DE FRADIQUE MENDES il
mente o preadiam os seas gostos e os sens hábitos — mundo mediano e regrado, sem invenção e sem ini- ciativa intellectual, onde as Idéas, para agradar, de- vem ser como as Maneiras, «geralmente adoptadas» 6 não individualmente creadas — Fradique, com a sua indócil e brusca liberdade de Juízos, aíTrontava o pe- rigo de passar por um petulante rebuscador de ori- ginalidade, ávido de gloriola e de excessivo destaque. Um espirito inventivo e novo, com uma força de pen- sar muito própria, deixando transbordar a vida abun- dante e múltipla que o anima e enche — é mais des- agradável a esse mundo do que o homem rudemeiite natural que não regre e limite dentro das «Conve- niências» a espessura da cabelleira, o estridor das ri- sadas, e o franco mover dos membros grossos. Doesse espirito indisciplinado e creador, logo se murmura com desconfiança: «Pretencioso! busca o effeito e o destaque!» Ora Fradique nada detestava mais inten- samente do que o effeito e o destaque excessivo. Nunca lhe conheci senão gravatas escuras. E tudo preferiria a ser apontado como um d' esses homens, que, sem ódio sincero a Diana e ao seu culto e só para que d'elles se falle com espanto nas praças, vão, em plena festa, agitando um grande facho, incen- diar-lhe o templo em Epheso. Tudo preferiria — me- nos (como elle diz n'uma carta a Madame de Jouar- re) «ter de vestir a Verdade nos armazéns do Lou- «vre para poder entrar com ella em casa de Anna «de Varie, duqueza de Varie e d'Orgemont. A en-
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«Irar hei de levar a minha amiga mia, toda núa, «pisando os tapetes com os seus pés dús, enristando «para os homens as pontas fecundas dos seus nobres «seios nús. Amicus Mundufi, sed magis arnica Veri- <ítas! Este bello latim significa, minha madrinha, que «eu, no fundo, julgo qne a originalidade é agradável «ás mulheres e só desagradável aos homens — o que «duplamente me leva a amal-a com pertinácia».
Esta iodependencia, esta livre elasticidade de es- pirito e intensa sinceridade — impedindo que por se - ducção elle se desse todo a ura S}>tema, onde para sempre permanecesse por inércia — eram de resto as qualidades que melbor convinham á funcção intelle- ctaal que para Fradique se tornara a mais contíaua e preferida. «Não ha em mim infelizmente (escrevia elle a Oliveira Martins, em 188:2) «nem um sábio, «nem um philosopho. Quero dizer, não sou um d'es- «ses homens seguros e úteis, destinados por tempe- «ramento ás analyses secundarias que se chamam «Sciencias, e que consistem em reduzir uma multidão «de factos esparsos a Typos e Leis particulares por «onde se explicam modalidades do Universo; nem «sou também um d'esses homens, fascinantes e pouco «seguros, destinados por génio ás analyses superiores «que se chamam Philosophias, e que consistem em «reduzir essas Leis e esses Typos a uma formula ge- «ral por onde se explica a essência mesma do inteiro «Uaiverso. Não sendo pois um sábio, nem um philo- «sopho, não posso concorrer para o melhoramento
A CORRESPONDÊNCIA DE FRADIQUE MENDES
«dos meus semelhantes — nem accrescendo-lhes o «bom-estar por meio da Sciencia que é uma produ- «ctora de riqueza, nem elevando-liies o bem-sentir «por meio da Metapbysica que é uma inspiradora de «poesia. A entrada na Historia também se me con- « serva vedada: — porque, se, para se produzir Lilte- «ratura basta possuir talentos, para tentar a Historia «convém possuir virtudes. E eul. .. Só portanto me «resta ser, através das idéas e dos factos, um ho- «mem que passa, inflaitamente curioso e attenlo. A «egoísta occupação do meu espirito hoje, caro hlsto- «riador, consiste em me acercar d'uma idéa ou d'um «facto, deslizar suavemente para dentro, percorrel-o «miudamente, explorar-lhe o inédito, gozar todas as «surprezas e emoçõ3s intellectuaes que elle possa «dar, recolher com cuidado o ensino ou a parcelia «de verdade que exista nos seus refolhos — e sabir, «passar a outro facto ou a outra idéa, com vagar e «com paz, como se percorresse uma a uma as cida- «des d'um paiz d'arte e luxo. Assim visitei outr'ora «a Itália, enlevado no esplendor das cores e das fór- «mas. Temporal e espiritualmente fiquei simples- «mente um touriste».
Estes touristes da intelligencia abundam em Fran- ça e em Inglaterra. Somente Fradique não se limitava, como esses, a exames exteriores e impessoae?, á ma- neira de quem n'uma cidade d'Oriente, retendo as noções e os gostos de Europeu, estuda apenas o aéreo relevo dos monumentos e a roupagem das multidões.
74 A CORRESPONDÊNCIA DE FRADIOUE MENDES
Fradiqne (para continuar a sua imagem) traosforma- va-se em «cidadão das cidades que visitava». Manti- ntia por priucipio que se devia momentaijea mente crer para bem comprehender uma crença. Assim se fizera babista, para penetrar e desvendar o Babismo. Assim se afiliara em Paris a um club revolucionário, As Paniheras de Batignolles, e frequentara as suas sessões, encolhido n'ama quinzena sórdida pregada com alfinetes, com a esperança de lá colher «a flor de alguma extravagância instructiva». Assim se in- corporava em Londres aos Positivistas rituaes, que, nos dias festivos do Calendário Comtista, vão quei- mar o incenso e a myrrha na ara da Humanidade e enfeitar de rosas a Imagem de Augusto Comte. As- sim se ligara com os Tkeosophistas, concorrera pro- digamente para a fundação da Revista Espiritista, e presidia as Evocações da roa Cardioet; envolto na túnica de linho, e^itre os dois vieiiums supremos, Patoff e Lady Thorgan. Assim habitara durante um longo verão Seo-d'Urgel, a catholica cidadella do Car- lismo, «para destrinçar bem (diz elle) qaaes são os «motivos e as formulas que fazem um Carlista — por- «que todo o sectário obedece á realidade d'um motivo «e á illusão d'dma formula». Assim se tornara o con- fidente do venerável Príncipe Koblaskini, para «poder «desmontar e estudar peça a peça o mecanismo d'um «cérebro de Nihilista», Assim se preparava (quando a morte o surprehendeu) a voltar á índia, para se tornar budhista praticante, e penetrar cabalmente o
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Badhismo, em que fixara a curiosidade e actividade critica dos seas derradeiros aonos. De sorte que d'elle bem se pôde dizer que foi o devoto de todas as Re- ligiões, o partidário de todos os Partidos, o discipulo de todas as Philosophias — cometa errando através das idéas, embibeodo-se convictamente D'ellas, de cada uma recebendo um accrescimo de substancia, mas em cada uma deixando alguma coisa do calor e da energia do seu movimento pensante. Aquelles que imperfeitamente o conheciam classificavam Fradique como um dileiíanie. Não ! essa séria convicção (a que os inglezes chamam earnestness), com que Fradique se arremessava ao fundo real das coisas, communi- cava á sua vida uma valia e efficacia muito superiores ás que o dileltantismo, a diversão sceptica que tantas injurias arrancou a Carlyle, communica ás naturezas que a elle deliciosamente se abandonam. O dilettante, com eíTeito, corre entre as idéas e os factos como as borboletas (a quem é desde séculos comparado) cor- rem entre as flores, para pousar, retomar logo o vôo estouvado, encontrando n'essa fugidia mutabilidade o deleite supremo. Fradique, porém, ia como a abelha, de cada planta pacientemente extrahindo o seu mel : — quero dizer, de cada opinião recolhendo essa «par- cella de verdade» que cada uma invariavelmente con- tém, desde que homens, depois de outros homens, a tenham fomentado com interesse ou paixão.
Assim se exercia esta diligente e alta Intelligeu- cia. Qual era porém a sua qualidade essencial e in-
7o A CORRESPONDÊNCIA DE FRADIQUE MENDES
trinseca? Tanto quanto pude diseeroir, a suprema qualidade intellectual de Fradique pareceu-me sem- pre ser — uma percepção extraordinária da Realida- de. «Todo o phenomeuo (diz elle n'uma carta a Aq- thero de Quental, suggestiva através de certa obscu- ridade que a envolve) «tem uma Realidade. A ex- «pressão de Realidade não é philosophica; mas eu «emprego-a, lanço-a ao acaso e tenteando, para apa- «nhar dentro d'ella o mais possivel d'um conceito «pouco coercivel, quasi irreductivel ao verbo. Todo «o phenomeno, pois, tem, relativamente ao nosso en- «tendimento e á sua potencia de discriminar, uma «Realidade — quero dizer certos caracteres, ou (para «me exprimir por uma imagem, como recommenda «Buffon) certos contornos que o limitam, o definem, «lhe dão feição própria no esparso e universal con- «juDto, e constituem o seu exacto, real e único modo «de ser. Somente o erro, a ignorância, os preconcei- «tos, a tradição, a rotina e sobretudo a illusão, for- «mam em torno de cada phenomeno uma névoa que «esbate e deforma os seus contornos, e impede que «a visão intellectual o divise no seu exacto, real e (lunico modo de ser. É justamente o que succede «aos monumentos de Londres mergulhados do ne- «voeiro... Tudo isto vai expresso d'um modo bem «hesitante e incompleto! Lá fora o sol está cahindo «d'um céo fino e nitido sobre o meu quintal de con- «vento coberto de neve dura: n'este ar tão puro e «claro, em que as coisas tomam um relevo rigido.
A CORRESPONDÊNCIA DE JRADIQIJE MENDES 77
«perdi toda a flexibilidade e fluidez da techoologia «philosophica: só me poderia exprimir por imagens «recortadas á tesonra. Mas vossè decerto comprehen- «derá, Anthero exceilente e subtil! Já esteve em Lon- «dres, no outono, em novembro? Nas manhãs de ne- «voeiro, n'uma rua de Londres, ha difficuldade em «distinguir se a sombra densa que ao longe se em- «pasta é a estatua d'um heroe ou o fragmento d'um «tapume. Uma pardacenta illusão submerge toda a «cidade — e com espanto se encontra n'uma taverna «quem julgara penetrar n'um templo. Ora para a «maioria dos espirites uma névoa igual fluclua sobre «as realidades da vida e do mundo. D'ahi vem que «quasi todos os seus passos são transvios, quasi to- «dos os seus juizos são enganos; e estes constante- « mente eslão trocando o Templo e a Taverna. Raras «são as visões intellectuaes bastante agudas e pode- «rosas para romper através da neblina e surprehen- «der as linhas exactas, o verdadeiro contorno da Rea- «lidade. Eis o que eu queria tartamudear».
Pois bem ! Fradique dispunha de uma d'essas vi- sões privilegiadas. O próprio modo que tinha de pou- sar lentamente os olhos e detalhar em silencio — co- mo dizia Oliveira Martins — revelava logo o seu pro- cesso interior de concentrar e applicar a Razão, á maneira de um longo e pertinaz dardo de luz, até que, desfeitas as névoas, a Realidade pouco a pouco lhe surgisse na sua rigorosa e única forma.
A manifestação d'esta magnifica força que mais
78 A CORRESPONDÊNCIA. DE KEtADlQUE MENDES
impressionava — era o seu poder de definir. Possuin- do um espirito que via com a máxima exactidão; possuindo um verbo que traduzia com a máxima concisão — elle podia assim dar resumos absoluta- mente profundos e perfeitos. Lembro qne uma noite, na sua casa da roa de Varennes, em Paris, se discu- tia com ardor a natareza da Arte. Repetiram-se todas as definiçõ3s de Arte, enunciadas desde Platão : in- ventaram-se outras, que eram, como sempre, o phe- nomeno visto limitadamente através d'um tempera- mento. Fradique conservoa-se algum tempo mudo, dardejando os olhos para o vago. Por fim, com essa maneira lenta (que para os que incompletamente o conheciam parecia professoral) murmurou, no silen- cio defdreote que se alargara: — <t.i Arte é um re- sumo da Natureza feito pela imaginação».
Certamente, não conheço mais completa defini- ção d'Ârte! E com razão alTirmava um amigo nos- so, homem de excellente phantasia, que «se o bom «Deus, um dia, compadecido das nossas hesitações, «nos atirasse lá de cima, do seu divino ermo, a final «explicação da Arte, nós ouviríamos resoar entre as «nuvens, soberba como o rolar de cem carros de «guerra, a definição de Fradique!»
A superior intelligencia de Fradique tinha o apoio de uma cultura furte e rica. Já os seus instrumentos de saber eram consideráveis. Além d'um solido co-
A CORRESPONDÊNCIA DE FRADIQUE MENDES 79
lecimento das liagaas clássicas (que, na sua idade ) Poesia e dd Litteratura decorativa, o habilitara a •ear em latim bárbaro poemetos tão bellos como o aus Veneris tenebrosa;) — possuía profundamente os iomas das três grandes naçõas pensantes, a França, Inglaterra e a AUemanha. Conhecia também o ara- 3, que (segundo me affirmou Riaz-EÍFendi, chronista
sultão Abdul-Aziz) fallava com abundância e gosto.
As sciencias naturaes eram-lhe queridas e fami- ares; e uma insaciável e religiosa curiosidade do niverso impe!lira-o a estudar tudo o que divina- lente o compõe, desde os insectos até aos astros, síudos carinhosamente feitos com o coração — por- ue Fradiqae sentia pela Natureza, sobretudo pelo aimal e pela planta, uma ternura e uma veneração enuiuamente badhistas. «Amo a Natureza (escrevia- le elle em 1882) «por si mesma, toda e individual- mente, na graça e na fealdade de cada uma das for- mas innumeraveis que a enchem : e amo-a ainda como manifestação tangível e múltipla da suprema Ujídade, da Realidade intangível, a que cada Reli- gião e cada Philosophia deram um nome diverso e a que eu presto culto sob o nome de Vida. Em re- sumo adoro a Vida — de que são igualmente ex- pressões uma rosa e uma chaga, uma constellação e (com horror o confesso) o conselheiro Acácio. Adoro a Vida e portanto tudo adoro — porque tudo é viver, mesmo morrer. Um cadáver rígido no seu esquife vive tanto como uma águia batendo furiosamente
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«O vôo. E a minha religião está toda do credo «Athanasio, com uma pequena variante: — « Cn a na Vida toda-poderosa, creadora do céo e «terra. . . »
Qaaado começou porém a nossa intimidade, er 1880, o seu ioquieto espirito mergulhava de prefí rencia nas sciencias sociaes, aquellas sobretudo qu pertencem á Pre-historia — a Aathropologia, a Lin guistica, o estado das Raças, dos Mythos e das Ins tituições Primitivas. Quasi todos os três mezes, alta rumas de livros enviadas da casa Hachette, densa camadas de Revistas especiaes, alastrando o tapet de Caramania, indicavam- me que uma nova curiosi dade se apoderara d'elle com intensidade e paixão Conheci-o assim successiva e ardentemente occupad com os monumentos megalithicos da Andaluzia; coe as habitações lacustres; com a mythologia dos povo Aryanos; com a magia Ghaldaica; com as raças Po lynesias; com o direito costumario dos Cafres; con a christianisação dos Deuses Pagãos... Estas aferra das investigações duravam em^uanto podia extrahi d'ellas «alguma emoção ou surpreza intellectual» Depois, um dia, Revistas e volumes desappareciam e Fradique auounciava triumphalmeote alargando o; passos alegres por sobre o tapete livre: — «Sorvi tod( o Sabeismol», ou «Esgotei os Polynesios!»
O estudo porém a que se prendeu ininterrompi damente, com especial constância, foi o da Historia «Desde pequeno (escrevia elle a Oliveira Martins
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uma das suas ultimas cartas, em 1S86) «tive a caixão da Historia. E adivinha vossê porquê, His- toriador? Pelo confortável e concbegado seutimeoto 'que ella me dava da solidariedade humana. Quando fiz onze annos, minha avó, de repente, pai-a me ha- bilitar ás coisas duras da vida (como ella dizia), arrancou-me ao pachorrento ensino do padre Nunes, e mandou-me a uma escola chamada Terceirense. O jardineiro levava-me pela mão: e todos os dias a avó me dava com solemnidade um pataco para eu comprar na tia Martha, confeiteira da esquina, bolos para a minha merenda. Este creado, este pa- taco, estes bolos, eram costumes novos que feriam o meu monstruoso orgulho de morgadinho — por me descerem ao nivel humilde dos filhos do nosso (procurador. Ura dia, porém, folheando uma Ejicí/- íclopedia de Antiguidades Uomanas, que linha es- campas, li, com surpreza, que os rapazes em Roma (na grande Roma!) iam tambsm de manhã para a «escola, como eu, pela mão d'um servo — denomi- «nado o Capsarius; e compravam também, como eu, um bolo n'uma lia Marlha do Velabro ou das Cari- <iQas, para comerem á merenda — que chamavam o ^lentaculum. Pois, meu caro, no mesmo instante a «venerável antiguidade d'esses hábitos tirou- lhes a «vulgaridade toda que n'elles me humilhava tanto! «Depois de os ter detestado por serem communs «aos filhos do Silva procurador — respeitei-os por «terem sido habiluaes nos filhos de Scipião. A com-
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(Tpra do bolo toraou-se como um rito que desde «Antiguidade todos os rapazes de escola cumpriam «e que me era dado por meu turno celebrar n'um; (íhonrosa solidariedade com a grande geute togada «Tudo isto, evideutemente, não o sentia com est; «clara consciência. Mas nunca entrei d'ahi por dianti «na tia Martha, sem erguer a cabeça, pensando coa «uma vangloria heróica: — «Assim faziam também o «romanos!» Era por esse tempo pouco mais alto qu( «uma espada goda, e amava uma mulher obesa qm «morava ao fim da rna. . . »
]N'essa mesma carta, adiante, Fradique aceres- cenla: — «Levou-me pois eíTectivamente á Historia ( «meu amor da Unidade — amor que envolve o horroi «às interrupções, ás lacunas, aos espaços escuroí «onde se não sabe o que ha. Viajei por toda a parte «vlajavel, li todos os livros de explorações e de tra- «vessias — porque me repugnava não conhecer o globc «em que habito até aos seus extremos limites, o nãc «sentir a contínua solidariedade do pedaço de terra «que tenho sob os pés com toda a outra terra que «se arqueia para além. Por isso, incansavelmente ex «pioro a Historia, para perceber até aos seus derra «deiros limites a Humanidade a que pertenço, 6 sen «tir a compacta solidariedade do meu sêr com a de «todos os que me precederam na vida. Talvez vossê «murmure com desdém — «mera bisbilhotice!» Amigo «meu, Dão despreze a bisbilhotice I Ella é um impulso «humano, de latitude infinita, que, como todos, vai
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otdo reles ao sublime. Por um lado leva a escutar ás uportas — e pelo outro a descobrir a America !»
O saber histórico de Fradiqae surprehendia real- mente pela amplexidade e pelo detalhe. Um amigo Dosso exclamava um dia, com essa ironia affavel que nos homens de raça céltica sublinha e corrige a admi- ração:— «.\quelle Fradiqae 1 Tira a charuteira, e dá «uma synthese profunda, d'uma transparência de ctcrysta), sobre a guerra do Peloponeso; — depois «accende o charuto, e explica o feitio e o metal da «fivela do cinturão de Leonidas!» Com eíTeiío, a sua forte capacidade de comprehender philosophicamente os movimentos coUectivos, o seu fino poder de evo- car psyLbologicamente os caracteres individuaes — alliava-se n'elle a um minucioso saber archeologico da vida, das maneiras, dos trajes, das armas, das festas, dos ritos de todas as idades, desde a índia Védica até á França imperial. As suas cartas a Oli- veira Martins (sobre o Sebastianismo, o nosso Impé- rio no Oriente, o Marquez de Pombal) ^ são verdadei- ras maravilhas pela sagaz intuição, a alta potencia
• Estas cartas constituem verdadeiros Ensaios His- tóricos, que, pelas suas proporções, não poderiam entrar n'esta collecção. Reunidas as notas e fragmentos disper- sos, devem formar um volume a que o seu compilador dará, penso eu, o titulo de Versos e Prosas de Fradique Mendes.
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synlhelica, a certeza do saber, a forçi e a abundani cia das idéas novas. E, por outro lado, a sua eradi ção archeologica repetidamente esclareceu e auxiliou ua sabia composição das suas telas, o paciente e fino reconstructor dos Costumes e das Maneiras da Anti- guidade Clássica, o velho Suma-Rabêma. Assim m'o confessou uma tarde Suma-Ilabêina, regando as ro- seiras, no seu jardim de Chelsea.
Fra dique era de resto ajudado por uma prodi-| giosa memoria que tudo recolhia e tudo retinha — ^ vasto e claro armazém de factos, de noções, de íóri: mas, todos bem arrumados, bam classificados, prom-; ptos sempre a servir. O nosso amigo Charabray affir- mava que, comparável á memoria de Fradiqiie, como «installação, ordem e excellencia do síoc/u», só conhe- cia a adega do café Inglez.
A cultora da Fradijue recebia um constante ali- mento e accrescimo das viagens que sem cessar em- prehendia, sob o impulso de admirações ou de curio- sidades intellectuaes. Só a Archeologia o levou qua- tro vezes ao Oriente: — ainda que a sua derradeira residência em Jerusalém, durante dezoito mezes, foi motivada (segundo me affirmou o cônsul Raccolini) por poéticos amores com uma das mais esplendidas mulheres da Syria, uma filha de Abraham Côppo, o faustoso banqueiro de Aleppo, tão lamentavelmente morta depois, sobre as tristes costas de Chypre, no naufrágio do Magnólia. A sua aventurosa e áspera peregrinação pela China, desde o Thibet (onde quasi
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deixou a vida, tentando temerariamente peoetrar na cidade sagrada de Lahsá) até á alta Mandchurla, cons- titue o mais completo estudo até hoje realisado por um homem da Europa sobre os Costumes, o Gover- no, a Ethica e a Litteratura d'esse povo «profundo «entre todos, que (como diz Fradique) conseguia «descobrir os três ou quatro únicos princípios de «moral capazes, pela sua absoluta força, de eternisar «uma civilisação».
O exame da Rússia e dos seus movimentos so- ciaes e religiosos trouxeram-no prolongados mezes pelas províncias ruraes d'entre o Dnieper e o Volga. A necessidade d'uma certeza sobre os Presídios Pe- naes da Sibéria impelliu-o a affrontar centenas de milhas de steppes e de neves, n'uma rude telega, até ás minas de prata de Nerchinski. E proseguiria n'este activo interesse, se não recebesse subitamente, ao che- gar á costa, a Archangel, este aviso do general Ar- mankoÊf, chefe da iv secção da policia imperial : — Monsieur, vous nous observez de írop prés, pour que volre jugement nen soit faussé; je vous invite donc, sur voíre intéret, et pour avoir de la Russie une vue d'ensemble plus exacle, d'aller la regarder de plus loin, dans votre belle maison de Paris! — Fradique abalou para Vasa, sobre o golfo de Bothnia. Passou logo á Suécia, e mandou de lá, sem data, este bilhete ao general Armankoff: — Monsieur, f ai reçu votre invi- tation ou il y a beaucoup dHntolerance et írois fau' ies de [rançais.
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Os mesmos interesses de espirito e '^necessidades de certeza> o levaram na America do Sul desde o Amazonas até ás areias da Patagonia, o levaram na Africa Austral desde o Cabo até aos Montes de Zokun- ga... f Tenho folheado e lido attentameote o mando «como um livro cheio de idéas. Para vêr por fora, «por mera festa dos olhos, nuncâ fui senão a Marro- «cosr.
O que tornava estas viagens tão fecundas como ensino era a sua rápida e carinhosa sympathia por todos os povos. Nunca visitou paizes á maneira do detestável touriste francez, para notar de alto e pê sã- mente «os defeitos» — isto é, as divergências d'essô typo de civilisação mediano e genérico d'onde sahia e que preferia. Fradique amava logo os costumes, as idéas, os preconceitos dos homens que o cercavam : e, fundindo-se com elles no seu modo de pensar e de sentir, recebia uma liç5o directa e viva de cada so- ciedade em que mergulhava. Este efácaz preceito — <rç77i Roma sê rojnano^ — tão fácil e doce de cumprir em Roma, entre as vinhas da collina Célia e as agnas susurrantes da Fonte Paulina, cumpria-o elle gostosa- mente trilhando com as alpercatas rotas os desfila- deiros do Himalaya. E estava tão homogeneamente D'uma cervejaria philosophica da Allemanha, aprofun- dando o Absoluto entre professores de Tubingen — como n'ama aringa africana da terra dos Matabeies, comparando os méritos da carabina c Express» e da carabina '^ Winchester », entre caçadores de elephantes.
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Desde 1880 os sens movimentos ponco a pouco se concentraram entre Paris e Londres — com exce- pção das «visitas filiaes» a Portugal: porque, apesar da sua dispersão pelo mundo, da sua facilidade em se nacionalisar nas terras alheias, e da sua impersonali- dade critica, Fradique foi sempre um genuino Portu- guez com irradicaveis traços de fidalgo ilhéo.
O mais puro e intimo do seu interesse deu-o sempre aos homens e ás coisas de Portugal. A com- pra da quinta do Saragoça, em Cintra, realisára-a (como diz n'uma carta a F. G., com desacostumada emoção) «para ter terra em Portugal^ e para se «prender pelo farte vinculo da propriedade ao solo taugusto d'onde um dia tinham partido, levados por «um ingénuo tumulto de idéas grandes, os seus «avós, buscadores de mundos, de quem elle herdara «o sangue e a curiosidade do além!*
Sempre que vinha a Portugal ia «retemperar a fibra» percorrendo uma provinda, lentamente, a ca- Tallo — com demoras em villas decrépitas que o en- cantavam, infindáveis cavaqueiras á lareira dos cam- pos, fraternisações ruidosas nos adros e nas taver- nas, idas festivas a romarias no carro de bois, no Tetasto e venerável carro sabino, toldado de chita, enfeitado de louro. A sua região preferida era o Ri- batejo, a terra chã da leziria e do boi. «Ahi (diz elle), «de jaleca e cinta, montado n'um potro, com a vara «de campino erguida, correndo entre as manadas de
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flgado, nos fioos e lavados ares da manhã, sinto, «mais que em nenhuma outra parte, a delicia de vi- «ver».
Lisboa sú lhe agradava — como paizagem. «Com otres fortes retoques (escrevia-me elle em 1881, do Hotel Braganza), «com arvoredo e pinheiros mansos «plantados nas coUioas calvas da Outra-Banda ; com «azulejos lustrosos e alegres revestindo as fachadas «sujas do casario; com uma varredella definitiva por «essas bemditas ruas — Lisboa seria uma d'essas bel- «lezas da Natureza creadas pelo Homem, que se tor- ce nam um motivo de sonho, de arte e de peregrina- «ção. Mas uma existência enraizada em Lisboa não «me parece tolerável. Falta aqui uma atmosphera in- fítellectual onde a alma respire. Depois certas feições, «singularmente repugnantes, dominam. Lisboa é uma «cidade aUíteratada, afadistada, catita e conselhei- «ral. Ha litteratice na simples maneira com que um «caixeiro vende um metro de fila; e, nas próprias «graças com que uma senhora recebe, transparece afadistice: mesmo na Arte ha conselheirismo ; e ha acatitismo mesmo nos cemitérios. Mas a náusea su- «prema, meu amigo, vem da politiquice e dos poli- «tiqoetes».
Fradique nutria pelos políticos todos os horrores, os mais iojustificados: horror intellectual, julgaodo-os incultos, broncos, inaptos absolutamente para crear ou comprehender idéas; horror mundano, presup- pondo-os reles, de maneiras crassas, impróprios para
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se misturar a naturezas de gosto; horror physico, imaginando que nunca se lavavam, rarissimamente mudavam de meias, e que d'elles provinha esse chei- ro morno e molle que tanto surprehende e enoja em S. Bento aos que d'elle não têm o habito profissio- Dal.
Havia n'estas ferozes opiniões, certamente, laivos de perfeita verdade. Mas em geral, os juizos de Fra- dique sobre a Politiija oíTereciam o cunho d'um pre- conceito que dogmatisa — e não d'uma observação que discrimina. Assim lh'o affirmava eu uma manhõ, no Braganza, mostrando que todas essas deficiências de espirito, de cultura, de maneiras, de gosto, de finura, tão acerbamente notadas por elle nos Políticos— se explicam sufflcienteraente pela precipitada democrati- sação da nossa sociedade; pela rasteira vulgaridade da vida provincial; pelas influencias abomináveis da Universidade; e ainda por intimas razões que são no fundo honrosas para esses desgraçadas Políticos, vo- tados por um fado vingador á destruição da nossa terra .
Fradique replicou simplesmente:
— Se um rato morto me disser, — «eu cheiro «mal por isto e por aquillo e sobretudo porque apo- «dreci»,— eu nem por isso deixo de o mandar var- rer do meu quarto.
Havia aqui uma antipathia de instincto, toda phy- siologica, cuja intransigência e obstinação nem factos nem raciocinios podiam vencer. Bem mais justo era
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O horror que lhe inspirava, na vida social de Lisboa, a inhabil, descomedida e papalva imitação de Paris. Essa «saloia macaqueação», superiormente denuncia- da por elle n'uma carta que me escreveu em 1885, e onde assenta, n'um luminoso resumo, que d Lisboa é uma cidade traduzida do francez em calão» — tor- nava-se para Fradique, apenas transpunha Santa Apo- lónia, um tormento sincero. E a sua anciedade per- petua era então descobrir, através da frandulagem do Francezismo, algum resto do genuíno Portugal.
Logo a comida constituía para elle um real des- gosto. A cada instante em cartas, em conversas, se lastima de não poder conseguir «um cozido verná- culo!»— «Onde estão (exclama elle, algures) os pra- «tos veneráveis do Portugal portuguez, o pato com cmacarrão do século xviii, a almôndega indigesta e «divina do tempo das descobertas, ou essa maravi- «Ihosa cabidella de frango, petisco dilecto de Dom «João lY, de que os fidalgos ioglezes que vieram ao «reino buscar a noiva de Carlos ii levaram para Lon- «dres a surprehendeule noticia? Tudo estragado I O «mesmo provincianismo reles põe em calão as come- «dias de Lobiche e os acepipes de Gouffé. E estamo- «nos nutrindo miseravelmente dos sobejos deraocra- «licos do boulemrd, requentados, e servidos em cha- «laça e galantioel Desastre estranho! As coisas mais «deliciosas de Portugal, o lombo de porco, a vitella ttde Lafões, os legumes, os doces, os vinhos, dege- «neraram, insipidaram. . . Desde quando? Pelo que
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«dizem os velhos, degeneraram desde o Coastitucio- «nalismo e o Parlamentarismo. Depois d'esses enxer- «tos funestos no velho tronco lusitano, os fructos têm «perdido o sabor, como os homens têm perdido o ca- «racter. . . i»
Só uma occasião, n'esta especialidade considerá- vel, o vi plenamente satisfeito. Foi n'uma taverna da Mouraria (onde eu o levara), diante d'um prato com- plicado e profundo de bacalhau, pimentos e grão de bico. Para o gozar com cohereucia Fradique despia a sobrecasaca. E como um de nós lançara casualmente o nome de Renan, ao atacarmos o pitéu sem igual, Fradique protestou com paixão:
— Nada de idéas! Deixem-me saborear esta ba- calhoada, em perfeita innoceucia de espirito, como no tempo do Senhor D. João v, antes da Democra- cia e da Criticai
A saudade do velho Portugal era n'elle constante: e considerava que, por ter perdido esse typo de ci- vilisação intensamente original, o mundo ficara dimi- nuído. Este amor do passado revivia n'elle, bem cu- riosamente, quando via realisados em Lisboa, com uma inspiração original, o luxo e o «modernismo» intelligente das civilisações mais saturadas de cultura e perfeitas em gosto. A derradeira vez que o encon- trei em Lisboa foi no Rato — n'uma festa de raro e delicado brilho. Fradique parecia desolado:
— Em Paris, aílirmava elle, a duqueza de La Ro- chefoucauld-Bisaccia pôde dar uma festa igual : e para
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isto Dão me valia a pena ter feito a quarentena em Marvão I Supponha porém vossê que eu vinha achar aqni nm sarau do tempo da Senhora D. Maria i, em casa dos Marialvas, com Gdalgas sentadas em estei- ras, frades tocando o lundum no bandolim, desem- bargadores pedindo mote, e os lacaios no pateo, en- tre os mendigos, rezando em coro a ladainha I . . . Ahi estava uma coisa onica, deliciosa, pela qual se podia fazer a viagem de Paris a Lisboa em liteira! Um dia que jantávamos em casa de Carlos Mayer, e que Fradique lamentava, cora melancólica sinceri- dade, o velho Portugal fidalgo e fradesco do tempo do snr. D. João v — Ramalho Ortigão não se conteve:
— Vossê é um monstro, Fradique! O que vossê queria era habitar o confortável Paris do meado do século XIX, e ter aqui, a dois dias de viagem, o Por- togal do século xviii, onde podesse vir, como a um museu, regalar-se de pittoresco e de archaismo. . . Vossê, lá na rua de Varennes, consolado de decência e de ordem. E nós aqui, em viellas fedorentas, inun- dados á noite pelos despejos d'aguas sujas, aturdidos pelas arruaças do marquez de Cascaes ou do coode d'Aveiras, levados aos empurrões para a enxovia pe- los malsins da Intendência, etc. etc... Confesse que é o que vossê queria!
Fradique volveu serenamente:
— Era bem mais digno e bem mais patriótico que em logar de vos vêr aqui, a vós, homens de le- tras, esticados nas gravatas e nas idéas que toda a
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Earopa usa, vos encontrasse de cabelleira e rabicho, com as velhas algibeiras da casaca de seda cheias d'odes saphit:as, encolhidinhos no salutar terror d'El- Rei e do Diabo, rondando os pateos da casa de Ma- rialva ou d'Aveiro, á espera que os senhores, de ci- ma, depois de dadas as graças, vos mandassem por um pretinho, os restos do peru e o mote. Tudo isso seria dignamente portnguez, e sincero; vós não me- recieis melhor; e a vida não é possivel sem um bo- cado de pittoresco depois do almoço.
Com effeito, n'esta saudade de Fradiqne pelo Por- tugal antigo, havia amor do «pittoresco», estranho n'um homem tão subjectivo e intellectual: mas so- bretudo havia o ódio a esta universal modernisação que reduz todos os costumes, crenças, idéas, gostos, modos, os mais iogenitos e mais originalmente pró- prios, a um typo uniforme (representado pelo sujeito utilitário e sério de sobrecasaca preta) — com a mo- notonia com que o chinez apara todas as arvores d'um jardim, até lhes dar a forma única e dogmática de pyramide ou de vaso funerário.
Por isso Fradique em Portugal amava sobretudo o povo — o povo que não mudou, como não muda a Natureza que o envolve e lhe communica os seus caracteres graves e doces. Amava-o pelas suas qua- lidades, e também pelos seus defeitos : — pela sua morosa paciência de boi manso; pela alegria idyllica que lhe poetisa o trabalho; pela calma acquiescencia á vassallagem com que depois do Senhor Rei venera
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O Senhor Goterno; pela sua doçara amaviosa e na^ turalista; pelo sea catholicismo pagão, e cariaho fiel aos Deuses latinos, tornados santos calendares ; pelos seus trajes, pelos seus cantos... aAmava-o ainda (diz elle) «pela sua linguagem tão bronca e pobre, «mas a única em Portugal onde se não sente odiosa «mente a inllaencia do Lamartinismo ou das Sebentas «ie Direito Publico».
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A ultima vez que Fradique visitou Lisboa foi essa em que o encontrei no Rato, lamentando os saraus i beatos e secios do século xvm. O antigo poeta das Lapidarias tinha então cincoenta annos; e cada dia se prendia mais á quieta doçura dos seus hábitos de Paris.
Fradique habitava, na rua de Varennes, desde 1880, uma ala do antigo palácio dos Duques de Tre- dennes que elle mobilara com um luxo sóbrio e gra- ve— tendo sempre detestado esse atulhamento de al- faias e estofos, onde inextricavelmente se embaralham e se contradizem as Artes e os Séculos, e que, sob o bárbaro e justo nome de hrk-à-brac, tanto seduz os financeiros e as cocottes. Nobres e ricas tapeçarias
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de Paizagena e de Historia; amplos divaos d'Aubus- son; alguDS moveis d'arte da Renascença Franceza; porcelanas raras de Deft e da China; espaço, clari- dade, uma harmonia de toas castos — eis o que se encontrava nas cinco salas que constituiam o «covil» <de Fradique. Todas as varandas, de ferro rendilhado, datando de Luiz xiv, abriam sobre um d'esses jardins de arvores antigas, que, n'aquelle bairro fidalgo e «eclesiástico, formam retiros de silencio e paz silvana, onde por vezes nas noites de maio se arrisca a cantar um rouxinol.
A vida de Fradique era medida por um relógio secular, que precedia o toque lento e quasi austero das horas com uma toada argentina de antiga dança de corte: e era mantida n'ama immutavel regulari- dade pelo seu creado Smith, velho escossez da clan dos Macduffs, já todo branco de pello e ainda todo rosado de pelle, que havia trinta annos o acompa- nhava, com severo zelo, através da vida e do mundo.
De manhã, ás nove horas, mal se espalhavam no ar os compassos gentis e melancólicos d'aquell8 esquecido minuete de Cimarosa ou de Haydin, Smith rompia pelo quarto de Fradique, abria todas as ja- nellas á luz, gritava: — Moming, Sir! Tmmediata- mente Fradique, dando de entre a roupa um salto brusco que considerava «de hygiene transcendente», corria ao immenso laboratório de mármore, a espon- jar a face e a cabeça em agua fria, com um resfolgar de Tryíão ditoso. Depois, enfiando uma das cabaias
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de seda que tanto me maravilhavam, abaadouava-se, estirado a'iima poltrona, aos cuidados de Smith que, como barbeiro (aífirmava Fradique) reunia a ligeireza macia de Figaro á sapiência confidencial do velho Oliveiro de Luiz xi. E, com eíTeito, emquaolo o en- saboava e escanhoava, Smith ia dando a Fradique um resumo nitido, solido, todo em factos, dos telegram- mas políticos do Times, do Standard e da Gazela de Colónia!
Era para mim uma surpreza, sempre renovada e saborosa, vêr Smith, com a sua alta gravata branca á Palmerston, a rabona curta, as calças de xadrez verde e preto (cores da sua clan), os sapatos de ver- niz decotados, passando o pincel na barba do amo, e murmurando, em perfeita sciencia e perfeita consciên- cia:— «Não se realisa a conferencia do príncipe de «Bismarck com o conde Kaloocky... Os conservadores «perderam a eleição supplementar de York... Fal- «lava-se hontem em Vienna d'um novo empréstimo» «russo. . .» Os amigos em Lisboa riam d'esta «catur- reira»; mas Fradique sustentava que havia aqui um proveitoso regresso á tradição clássica, que em todo o mundo latino, desde Scipião o Africano, instituirá os barbeiros como «informadores universaes da coisa publica». Estes curtos resumos de Smith formavam a carcassa das suas noções politicas: e Fradique nunca dizia — «Li no Times» — mas «Li no Smith».
Bem barbeado, bem informado, Fradique mergu- lhava n'um banho ligeiramente tépido, d'onde voltaví
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para as mãos vigorosas de Smith, que, com um jogo de luvas de lã, de flaaella, d'estopa, de clioa e de pelle de tigre, o friccionava até que o corpo todo se lhe tornasse, como o de Apollo, «róseo e reluzente». Tomava então o seu chocolate; e recolhia á bibliothe- ca, sala séria e simples, onde uma imagem da Ver- dade, radiosamente branca na sua nudez de mármore, pousava o dedo subtil sobre os lábios puros, symbo- lisando, em frente á vasta mesa de ébano, um traba- lho todo intimo á busca de verdades que não são para o ruido e para o mundo.
Á uma hora almoçava, com a sobriedade d'um grego, ovos e legumes: — e depois, estendido n'um divan, tomando goles lentos de chá russo, percorria nos Jornaes e nas Revistas as chronicas d'arte, de litteratura, de theatro ou de sociedade, que não eram da competência politica de Smith. Lia então também com cuidado os jornaes portuguezes (que chama al- gures «phenomenos picarescos de decomposição so- cial»), sempre característicos, mas superiormente in- teressantes para quem como elle se comprazia em analysar «a obra genuina e sincera da mediocridade», e considerava Calino tão digno d'estudo . como Vol- taire. O resto do dia dava-o aos amigos, ás visitas, aos ateliers, ás salas d'armas, ás exposições, aos clubs — aos cuidados diversos que se cria um homem d'alto gosto vivendo n'uma cidade d'alta civilisação.
De tarde subia ao Bois condazindo o seu phae- ton, ou montando a Sabd, uma maravilhosa egoa das
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caudelarias de AíQ-Weibah que lhe cedera o Emir d© Mossul. E a sua noite (quando não linha cadeira n2f Opera ou na Comédie) era passada D'alguin salão — precisando sempre findar o seu dia entre «o ephe-= mero feminino». (Assim dizia Fradique).
A inllaencia d'este «feminino» foi suprema na suí existência. Fradique amou mulheres; mas fora d'es-' sas, e sobre todas as coisas, amava a Mulher.
A sua conducta para com as mulheres era gover- nada conjuntamente por devoções de espiritualista, ' por curiosidades de critico, e por exigências de san- guíneo. Á maneira dos sentimentaes da Restauração, Fradique considerava-as como «organismos» supe- riores, divinamente complicados, differentes e mais próprios de adoração do que tado o que oíTerece a Natureza : ao mesmo tempo, através d'este culto, ia dissecando e estudando esses «organismos divinos», fibra a fibra, sem respeito, por paixão de analysta ; 6 frequentemente o critico e o enthusiasta desappa- reciam para só restar n'elle um homem amando a mulher, na simples e boa lei natural, como os Fau-'-! nos amavam as Nymphas.
As mulheres, além d'isso, estavam para elle (pelo menos nas suas theorias de conversação) classificadas em espécies. Havia a «mulher d'exterior», flor de luxo e de mundanismo culto : e havia a « mulher d'in- terior», a que guarda o lar, diante da qual, qualquer que fosse o seu brilho, Fradique conservava um tom penetrado de respeito, excluindo toda a investigação
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Bxperimental. «Estou em presença d'estas (escreve Bile a Madame de Jonarre), «como em face d'iima «carta alheia fechada com sinete e lacre». Na pre- sença, porém, d'aqnellas que se « exteriorisam » e «rivem todas no ruido e na phantasia, Fradique acha- va-se Ião livre e tão irresponsável como perante um volume impresso. « Folhear o livro (diz elle ainda a Madame de Jouarre), «annotal-o nas margens asseti- ct nadas, critical-o em voz alta com independência e «veia, leval-o no coupé para lêr á noite em casa, «aconselhal-o a um amigo, atiral-o para um canto percorridas as melhores paginas — è bem permitti- «do, creio eu, segundo a Cartilha e o Código».
Seriam estas subtilezas (como suggeria um cruel amigo nosso) as d'um homem que theorisa e idealisa o seu temperamento de carrejão para o tornar lite- rariamente interessante? Não sei. O commentaria mais instructivo das suas theorias dava-o elle, visto n'uma sala, entre «o ephemero feminino». Certas mulheres muito voluptuosas, quando escutam um ho- mem que as perturba, abrem insensivelmente os lá- bios. Em Fradique eram os olhos que se alargavam. Tinha-os pequenos e côr de tabaco : mas junto d'uma d'essas mulheres de exterior, « estrellas de munda- nismo», tornavam -se-lhe immensos, cheios de lux negra, avelludados, quasi húmidos. A velha lady Mongrave comparava-os «ás guelas abertas de duas iserpeotes». Havia alli com efiíeito um acto de allicia- ção e de absorpção — mas havia sobretudo a eviden-
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cia da peHurbação e do encanto qae o inundavam. N'essa attenção de beato diante da Virgem, no mur- múrio quente da voz mais amoUecedora que um ar de estufa, no humeiecimento enleado dos seus olhos finos, — as mulberes viam apenas a iafluencia omni- potentemenie vencedora das suas graças de Forma e d'Alma sobre um homem esplendidamente viril. Ora nenhum homem mais perigoso do que aquelle que dá sempre ás mulheres a impressão clara, quasi tangí- vel— de que ellas são irresistiveis, e subjugam o co- ração mais rebelde só com mover os hombros lentos ou murmurar «que linda tardei» Quem se mostra facilmente seduzido — facilmente se torna seductor. É a lenda índia, tão sagaz e real, do espelho encan- tado em que a velha Maharina se via radiosamente bella. Para obter e reter esse espelho, em que com tanto esplendor se reflecte a sua pelle engilhada — que peccados e que traições não commetterà a Maha- rina?...
Creio, pois, que Fradique foi profundamente ama- do, e que magnificamente o mereceu. As mulheres encontravam n'elle esse sêr, raro entre os homens — um Homem. E para ellas Fradique possuia esta su- perioridade inestimável, quasi única na nossa geração — uma alma extremamente sensível, servida por um corpo extremamente forte.
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De maior duração e intensidade qae os seus amo- res foram todavia as amizades que Fradique a si at- trahiu pela sua excellencia moral. Quando eu conheci Fradique em Lisboa, no remoto anno de 1867, jul- guei sentir na sua natureza (como no seu verso) uma impassibilidade brilhante e metallica : e através da admiração que me deixara a sua arte, a sua persona- lidade, o seu viço, a sua cabaia de seda — confessei nm dia a J. Teixeira d'Azevedo que não encontrara 00 poeta das Lapidarias aquelle tépido leite da bon- dade humana, sem O qual o velho Shakspeare (nem eu, depois d'elle) comprehendia que um homem fosse digno da humanidade. A sua mesma polidez, tão ri- sonha e perfeita, me parecera mais composta por um >ystema do que genuinamente ingenita. Decerto, po- rém, concorreu para a formação d'este juizo uma carta (já velha, de 1855) que alguém me confiou, e em que Fradique, com toda a leviana altivez da mo- cidade, lançava este rude programma de conducta : — «Os homens nasceram para trabalhar, as mulheres «para chorar, e nós, os fortes, para passar friamente « através ! . . . »
Mas em 1880, quando a nossa intiniiidade uma noite se fixou a uma mesa do Bignon, Fradique ti- nha cincoenta annos : e, ou porque eu então o obser- vasse com uma assiduidade mais penetrante, ou por- que n'elle se tivesse já operado com a idade esse phe- Domeno que Fustan de Carmanges chamou depois le
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degel de Fradique, bem cedo seoli, através da impas- sibilidade marmórea do cÍDzelador das Lapidarias, brotar, tépida e generosameale, o leite da bondade humana.
A forte expressão de virtude que n'elle logo me impressioQou foi a sua iocoodicioDal e irrestricta in- dulgeocia. Ou por uma cooclasão da sua philosophia, ou por uma inspiração da sua natureza — Fradique, perante o peccado e o delicto, tendia áquella velha misericórdia evangélica que, consciente da universal fragilidade, pergunta d'onde se erguerá a mão bas- tante pura para arremessar a piimeira pedra ao erro. Em toda a culpa elle via (talvez contra a razão, mas em obediência áquella voz que fallava baixo a S. Fran- cisco de Assis e que ainda se não caloo) a irreme- diável fraqueza humana : e o seu perdão subia logo do fundo d'essa Piedade que jazia na sua alma, como manancial d'agaa pura em terra rica, sempre prom- pto a brotar.
A sua bondade, porém, não se limitava a esta ex- pressão passiva. Toda a desgraça, desde a amargura limitada e tangível que passa na rua, até á vasta e esparsa miséria que com a força d'um elemento de- vasta classes e raças, teve n'elle um consolador dili- gente e real. São d'elle, e escriptas nos derradeiros annos (n'oma carta a G. F.) estas nobres palavras : — «Todos nós que vivemos n'este globo formamos uma « immensa caravana que marcha confusamente para o « Nada. Cerca-nos uma natureza inconsciente, impas-
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«sivel, mortal como dós, que não nos entende, nem «sequer nos vê, e d'on(le não podemos esperar nem « soccorro nem consolação. Só nos resta para nos di- «rigir, na rajada qae nos leva, esse secular preceito, «summa divina de toJa a experiência humana — « aju- «dae-vos uns aos outros!» Que, na tumultuosa ca- «ffiinhada, portanto, onde passos sem conta se mis- «turam — cada um ceda metade do seu pão áquelle « que tem fome ; estenda metade do seu manto áquelle «que tem frio; acuda com o braço áquelle que vai «tropeçar; poupe o corpo d'aqueUe que já tombou; « e se algum mais bem provido e seguro para o cami- «nho necessitar apenas sympathia d'almas, que as al- emãs se abram para elle transbordando d'essa sym- «pathia. . . Só assim conseguiremos dar alguma bel- «leza e alguma dignidade a esta escura de bandada «para a Morte ».
Decerto Fradique não era um santo militante, re- buscando pelas viellas misérias a resgatar: mas nunca houve mal, por elle conhecido, que d'elle não rece- besse allivio. Sempre que íia por acaso, n'um jornal, uma calamidade ou uma indigência, marcava a noti- cia com um traço a lápis, lançando ao lado um alga- rismo — que indicava ao velho Smith o numero de li- bras que devia remetter, sem publicidade, pndica- mente. A sua máxima para com os pobres, (a quem os Economistas afâ^rmam que se não deve Caridade mas Justiça) — era «que á hora das comidas mais vale um pataco na mão que duas Philosophias a voar».
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As creanças, sobretudo quando uecessitadas, iospira- vam-lbe um enternecioQeQto infinito ; e era d'estes, singularmente raros, que eneoutrando, n'um agreste dia de inverno, um pequenino que pede, tranzido de frio — param sob a chuva e sob o vento, desapertam pacientemente o paletot, descalçam pacientemente a luva, para vasculhar no fundo da algibeira, á procura da moeda de prata que vai ser o calor e o pão d' um dia.
Esta caridade estendia-se budbistamente a tudo que vive. Não conheci homem mais respeitador do animal e dos seus direitos. Uma occasião em Paris, correndo ambos a uma estação de jlacres para nos salvarmos d'um chuveiro que desabava, e seguir, na pressa que nos levava, a uma venda de tapeçarias (onde Fradique cubicava umas Aoue Musas dançando entre loureiraes), encontrámos apenas um coupé, cuja pileca, com o sacco pendente do focinho, comia me- lancolicamente a sua ração. Fradique teimou em es- perar que o cavallo almoçasse com socego — e perdeu as Nove Musas.
Nos últimos tempos, preoccupava-o sobretudo a miséria das classes — por sentir que n'estas Demo- cracias industriaes e materialistas, furiosamente em- penhadas na lucta pelo pão egoista, as almas cada dia se tornam mais sêccas e menos capazes de piedade. «A fraternidade (dizia elle n'uma carta de i886, que conservo) «vai-se sumindo, principalmente n'estas vas- «tas colmeias de cal e pedra onde os homens teimam
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«em se amontoar e luctar ; e, através do constante «deperecimento dos costumes e das simplicidades ra- «raes, o mundo vai rolando a ura egoísmo feroz. 1 «primeira evidencia d'est.e egoismo é o desenvolvi- « mento ruidoso da philantropia. Desde que a caridade «se organisa e se consolida em instituição, com regu- «lamentos, relatórios, comités, sessões, um presidente «e uma campainha, e de sentimento natural passa a «fancção ofâcial — é porque o homem, não contando «já com os impulsos do seu coração, necessita obri- «gar-se publicamente ao bem pelas prescripções d'um «estatuto. Com os corações assim duros e os inver- «nos tão longos, que vai ser dos pobres?. . .í
Quantas vezes, diante de mim, nos crepúsculos de novembro, na sua bibliotheca apenas alumiada pela chamma incerta e doce da lenha no fogão, Fradique emergiu d'um silencio em que os olhares se lhe per- diam ao longe, como afundados em horisontes de tristeza — para assim lamentar, com enternecida ele- vação, todas as misérias humanas ! E voltava então a amarga affirmação da crescente aspereza dos homens, forçados pela violência do conflicto e da concorrência a um egoismo rude, em que cada um se torna cada vez mais o lobo do seu semelhante, homo homini lú- pus.
— Era necessário que viesse outro Christo ! mur- murei eu um dia.
Fradique encolheu os hombros :
— Ha de vir ; ha de talvez libertar os escravos :
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La de ter por i3so a sua igreja e a sua liturgia ; e de- pois ha de ser negada ; e mais tarde ha de ser es- quecido ; e por fim hão de surgir novas turbas de es- cravos. Kão ha nada a fazer. O que resta a cada um por prudência é reunir um pecúlio e adquirir um re- vohver ; e aos seus semelhantes que lhe baterem á porta, dar, segundo as circumstancias, ou pão ou bala.
Assim, cheios de idéas, de delicadas occupações e d'obras amáveis, decorreram os derradeiros annos de Fradique Mendes em Paris, até que no inverno de 1888 a morte o colheu sob aquella forma que elle, como César, sempre appetecera — inopinatam atque repentinam.
Uma noite, sahiodo d'uma festa da condessa de La Ferté (velha amiga de Fradique, com quem fizera n'um yacht uma viagem á Islândia) achou no vestiário a sua pelissa russa trocada por outra, confortável e rica também, que tinha no bolso uma carteira com o monogramma e os bilhetes do grfu-eral Terrand'Azy. Fradique, que soffria de repnguaucias intolerantes, não se quiz cobrir com o agasalho d'aquelle ofâcial rabugento e catarrhoso, e atravessou a praça da Con- córdia a pé, de casaca, até ao club da Rue Royale. A noite estava sêcca e clara, mas cortada por uma d'essas brizas subtis, mais ténues que um hálito, que durante léguas se afiam sobre planícies nevadas do norte, e já eram comparadas pelo velho André Vasali
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a «um pnnhal traiçoeiro^). Ao outro dia acordou com uma tosse leve. IndifTerente porém aos resguardos, seguro d'uma robustez que affrontàra tanlos ares ia- clementes, foi a Fontaluebleau com amigos no alto d'um mail-coach. Logo n'essa noite, ao recolher, teve um longo e intenso arripio ; e trinta horas depois, sem solTrimento, tão serenamente que durante algum tempo Smith o julgou adormecido, Fradique, como diziam os antigos, «tinha vivido». Não acaba mais docemente um bello dia de verão.
O dr. Labert declarou que fora uma forma rarís- sima de pieuriz. E accrescentou, com um exacto sen- timento das felicidades humanas : — « Toujours de la chance, ce Fradique! »
Acompanharam a sua passagem derradeira pelas ruas de Paris, sob um céo cinzento de neve, alguns dos mais gloriosos homens de França nas coisas do saber e da arte. Lindos rostos, já pisados pelo tem- po, o choraram, na saudade das emoções passadas. E, em pobres moradas, em torno a lares sem lume, foi decerto também lamentado este sceptico de finas letras, que cuidava dos males humanos envolto em cabaias de seda.
Jaz no Père-Lachaise, não longe da sepultura de Balzac, onde no dia dos Mortos elle mandava sempre collocar um ramo d'essas violetas de Parma que tanto amara em vida o creador da Comedia Humana. Mãos fieis, por seu turno, conservam sempre perfumado de rosas frescas o mármore simples que o cobre na terra.
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VII
o erudito moralista que assigoa Alceste na Ga- zeite de Paris dedicou a Fradi^ue Mendes uma Chro- DÍca em que resume assim o seu espirito e a sua acção: — «Pensador verdadeiramente pessoal e forte, «Fradique Mendes não deixa uma obra. Por iodiffe- «rença, por indolência, este homem foi o dissipador «d'uma enorme riqueza intellectual. Do bloco d'ouro «em que poderia ter talhado um monumento impere- «civel — tirou elle durante anãos curtas lascas, mi- «galhas, que espalhou ás mãos cheias, conversando, «pelos salões e pelos clnbs de Paris. Todo esse pó ad'ouro se perdeu no pó commum. E sobre a sepul- jj «tura de Fradique, como sobre a do grego desconhe- «cido de que canta a Anthologia, se poderia escre- «ver: — «Aqui jaz o ruido do vento que passou der- | «ramando perfume, calor e sementes em vão. . .»
Toda esta chronica vem lançada com a usual su- perficialidade e inconsideração dos francezes. Nada j menos reflectido que as designações de indolência, ^ indifferença, que voltam repetidamente, n'essa pagina j bem ornada e sonora, como para marcar com preci- são ã natureza de Fradique. Elle foi ao contrario um
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homem todo de paixão, de acçlo, de tenaz labor. E escassamente pôde ser accasado de indolência, de in- differença, quem, como elle, fez duas campanhas, apostolou uma religião, trilhou os cinco continentes, absorveu tantas civilisações, percorreu todo o saber do seu tempo.
O chronista da Gazelte de Paris acerta porém, singularmente, aíTirmando que d'esse duro obreiro não resta uma obra. Impressas e dadas ao mundo só d'elle conhecemos com eíFeito as poesias das Lapida- rias, publicadas na Revolução de Setembro — e esse curioso poemeto em latim bárbaro, Laus Veneris Ten- nebrosíB, que appareceu na Hevue de Poésie et d'Art, fundada em Ons de 09 em Paris por um grupo de poetas symbolistas. Fradique, porém, deixou manus- criptos. Muitas vezes, na rua de Varennes, os en- trevi eu dentro d'um cofre hespanhol do século xiv, de ferro lavrado, que Fradique denominava a valia commum. Todos esses papeis (e a plena disposição d'elles) foram legados por Fradique áquella Libuska de quem elle largamente falia nas suas cartas a Ma- dame de Jouarre, e que se nos torna tão familiar e real «com os seus velludos brancos de Veneziana e «os seus largos olhos de Juno».
Esta senhora, que se chamava Varia Lobrinska, era da velha familia russa dos Príncipes de Palidoff. Em 1874 seu marido Paulo Lobrinski, diplomata si- lencioso e vago, que pertencera ao regimento das Guardas Imperiaes, e escrevia capitaine com /, e, (ca-
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piténe) morrera era Paris, por fins d'outOQO, ainda moço, de uma laoguida e longa anemia. Immediala- meole Madame Lobrinska, com solemoe mágoa, cer- cada d'aias e de crepes, recolheu ás suas vastas pro- priedades russas perlo de Starobelík, no governo de KarlvoU. Na primavera, porém, voltou com as flores dos castDDheiros,— e desde então habitava Paris em luxuosa e risonha viuvez. Um dia, em casa de Ma- dame de Jouarre, encontrou Fradique, que, enlevado ' então no culto das Litteraturas slavas, se occupava com paixão do mais antigo e nobre dos seus poemas, o Julgamento de Libuska, casualmente encontrado em 1818 nos archivos do castello de Zelene-IIora. Ma- dame Lobrinska era parenta dos senhores de Zelene- Hora, condes de Colloredo — e possuia justamente uma reproducção das duas folhas de pergaminho que contêm a velha epopeia barbara.
Ambos leram esse texto heróico — até que o doce instante veio em que, como os dois amorosos de Dante, «não leram mais no dia todo». Fradique dera a Ma- dame Lobriní^ka o nome de Libuska, a rainha que no Julgamento apparece «vestida de branco e resplande- cente de sapiência». Ella chamava a Fradique Lúci- fer. O poeta das Lapidarias morreu em novembro : — e dias depois Madame Lobrinska recolhia de novo á melancolia das snas terras, junto de StarobeL^k, no governo de Karkoff. Os seus amigos sorriram, mur- muraram com sympathia que Madame Lobrinska fu- gira, para chorar entre os seus moujiks a sua segun-
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a viuvez — até que reflorecesse os lilazes. Mas d'esta ez Libushíi não voltou, nem com as ílôres dos casta- iheiros.
O marido de Madame Lobrinslía era um Diplo- oata que estudava e praticava sobretudo os menus e is cotillons. A sua carreira foi portanto irremedia- elmente subalterna e lenta. Durante seis annos ja- eu no Rio de Janeiro, entre os arvoredos de Pelro- lolis, como Secretario, esperando aquella legação na Curopa que o Principe Gortchakoír, então Chanceller mperial, afnrmava pertencer a Madame Lobriuska ^ar droií de beauié et' de sagesse. A legação na Eu- opa, n'uma capital mundana, culta, sem bananeiras, lunca veio compensar aquelles exilados que soffriam las saudades da neve: — e Madame Lobrinska, no eu exilia, chegou a aprender tão compielamente a lossa doce liogua de Portugal, que Fradique me mos- rou uma traducção da elegia de Lavoski, A Colima \o Adeus, trabalhada por ella com superior pureza e elevo. Só ella pois, realmente, d'eQtre todas as ami- [as de Fradique, podia apreciar como paginas vivas, inde o pensador depozera a confidencia do seu pen- amento, esses manuscriptos que para as outras se- iam apenas sêccas e mortas folhas de papel, cober- as de linhas incomprehendidas.
Logo que comecei a colleccionar as cartas disper- as de Fradique Mendes, escrevi a Madame Lobriuska :ontando o meu empenho em fixar n'um estudo cari- ihoso as feições d'esse transcendente espirito — e im-
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piorando, se não alguns extractos dos seus mani criptos, ao menos algumas revelações sobre a si natureza. A resposta de Madame Lobrinska foi uma recusa, bem determinada, bem deduzida, — mostran- do que decerto sob «os claros olhos de Juno» estava uma clara razão de Minerva. «Os papeis de Carlos «Fradique (dizia em summa) tinham- lhe sido confia- «dos, a ella que vivia longe da publicidade, e do «mundo que se interessa e lucra na publicidade, com «o intuito de que para sempre conservassem o ca- «racler intimo e secreto em que tanto tempo Fradi- íque os mantivera : e n'estas condições o revelar a, <tsua natureza seria manifestamente contrariar o re- «catado e altivo sentimento que dictára esse lega- «do...» Isto vinha escripto, com uma letra grossa e redonda, n'uma larga folha de papel áspero, onde a um canto brilhava a ouro, sob uma coroa d'ouro,i esta divisa — Per terram ad C(elum.
D'este modo se estabeleceu a obscuridade em tor- no dos manuscriptos de Fradique. Que continha real- mente esse cofre de ferro, que Fradique com descon- solado orgulho denominava a valia commum, por julgar pobres e sem brilho no mundo os pensamen- tos que para lá arrojava?
Alguns amigos pensam que ahi se devem en- contrar, se não completas, ao menos esboçadas, ou já coordenadas nos seus materiaes, as duas obras a que Fradique alludia como sendo as mais caplivan- tes para um pensador e um artista d'este século —
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ma Psy citologia das Religiões e. uma Theoria da 'ontade.
Outros (como J. Teixeira d'Azevedo) julgam que 'esses papeis existe um romance de realismo épico, ecoQStruiodo uma civilisação exUucta, como a Sa- ammbò. E deduzem essa supposição (desamoravel) fuma carta a Oliveira Martins, de 1880, em que <>adiqne exclamava, com uma ironia mysteriosa: — SiQto-me resvalar, caro historiador, a praticas cul- padas e vãs! Ai de mim, ai de mim, que me foge a penna para o raall Que demónio malfazejo, co- :(berto do pó das Idades, e sobraçando in-folios ar- «cheologicos, me veio murmurar uma d'estas noites, «noite de duro inverno e de erudição decorativa: « — «Trabalha um romance! E no teu romance re- «suscita a antiguidade asiática l»? E as suas sugges- «tões pareceram-me doces, amigo, d'uma doçura le- «thal!... QaQ dirá vossê, dilecto Oliveira Martins, «se um dia desprecavidamenle no seu lar receber «um tomo meu, impresso com solemnidade, e come- «çando por estas linhas: — vEra em Babylonia, no umez de Sivanu, depois da colheita do bálsamo?... y> <r Decerto, vossê (d'aqui o sinto) deixara pender a «face aterrada entre as mãos tremulas, murmurando: « — «Justos céosi Ahi vem sobre nós a descripção do «templo das Sele-Espheras, com todos os seus terra- aços ! a descripção da batalha de Halub, com todas «as suas armas! a descripção do banquete de Senna- «cherib, com todas as suas iguarias I... Nem os
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«bordados d'ama só túnica, nem os relevos d'tim s «vaso nos serão perdoados! E é isto um amigo ia «timo!»
Ramalho Ortigão, ao contrario, inclina a crer que os papeis de Fradiqne contêm Memorias — TporquQ ?(' a Memorias se [óde coherentemente impor a condi- ção de permanecerem secretas.
Eu por mira, d'ura melhor e mais contínuo co nhecimento de Fradique, concluo que elle não deixou" um livro de Psychologia, nem uma Epopeia archeo lógica (que certamente pareceria a Fradique uma cu pada e vã ostentação de saber piltoresco e fácil), ue Memorias — inexplicáveis n'um homem todo de idé e de abstracção, que escondia a sua vida com tão ai tivo recato. E affirmo afoutamente que n'esse cofr de ferro, perdido n'am velho solar russo, não eKiste uma obra — porque Fradique nunca foi verdadeira- mente um auctor.
Para o ser não lhe faltaram decerto as idéas — mas faltou-lhe a certeza de que ellas, pelo seu valor definitivo, merecessem ser registradas e perpetuadas : e faltou-lhe ainda a arte paciente, ou o querer forte, para produzir aquella forma que elle concebera em abstracto como a única digna, por bellezas especiaes e raras, de encarnar as suas idéas. DesconSança de si como pensador, cujas conclusões, renovando a phí losophia e a sciencia, podessem imprimir ao espiritOj humano um movimento inesperado; desconfiança de si como escriptor e creador d'uma Prosa, que só por
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ái própria, e separada do valor do pensamento, exer- cesse sobre as almas a acção ineíTavel do absoluta- mente bello — eis as duas ioflaencias negativas que retiveram Fradique para sempre inédito e mudo. Tudo o que da sua intelligencia emanasse queria elle que perpetuamente ficasse actuando sobre as intelligencias pela definitiva verdade ou pe!a incomparável belleza. Mas a critica inclemente e s?gaz que praticava sobre os outros, praticava-a sobre si, cada dia, com redo- brada sagacidade e inclemência. O sentimento, tão vivo a'elle, da Realidade fâzia-lbe distinguir o seu próprio espirito tal como era, na sua real potencia e DOS seus reaes limites, sem que lh'o mostrassem mais potente ou mais largo esses «fumos da illusão lilte- raria» — que levam todo o bomem de letras, mal corre a penna sobre o papel, a tomar por faiscantes raios de luz alguns sujos riscos de tinta. E concluindo que, nem pela idéa, nem pela forma, poderia levar ás intelligencias persuasão ou encanto que definitiva- mente marcassem na evolução da razão ou do gosto — preferiu altivamente permanecer silencioso. Por mo- tivos nobremente differentes dos de Descartes, elle seguiu assim a máxima que tanto seduzia Descartes — bene vixit qui bene laluit.
Nenhum d'estes sentimentos elle me confessou; mas todos lh'os surprehendi, transparentemente, n'um dos derradeiros Nataes que vim passar á rua de Varennes, onde Fradique pelas festas do anno me hospedava com immerecido esplendor. Era uma
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noite de grande e ruidoso inverno: e desde o café, com os pés estendidos á alia chamma dos madeiros de faia que estalavam na chaminé, conversávamos sobre a Africa e sobre religiões Africanas. Fradique recolhera na região do Zambeze notas muito flagran- tes, muito vivas, sobre os cultos nativos — que são divinisações dos chefes mortos, tornados pela morte MulunguSf Espíritos dispensadores das coisas boas e más, com residência divina nas cubatas e nas col- linas onde tiveram a sua residência carnal; e, com- parando os ceremoniaes e os Qns d'estes cultos sel- vagens da Africa com os primitivos ceremoniaes li- túrgicos dos Aryas em Septa-Sandoo, Fradique con- cluia (como mostra n'uma carta d'esse tempo a Guerra Junqueiro) que na religião o que ha de real, essen- cial, necessário e eterno é o Ceremonial e a Liturgia — e o que ha de artificial, de supplementar, de dis- pensável, de transitório é a Theologia e a Moral.
Todas estas coisas me prendiam irresistivelmen- te, sobretudo pelos traços de vida e de natureza afri- cana com que vinham illuminadas. E sorrindo, sedu- zido:
— Fradique! porque não escreve vossê toda essa, sua viagem á Africa ?
Era a vez primeira que eu suggeria ao meu ami- go a idéa de compor um livro. Elle ergueu a face para mim com tanto espanto como se eu lhe propo- zesse marchar descalço, atravez da noite tormentosa,] até aos bosques de Marly. Depois, atirando a cigar-
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rette para o lume, murmurou com lentidão e melau- colia :
— Para que?... Não vi nada na Africa, que os outros não tivessem já visto.
E como eu lhe observasse que vira talvez d'um modo differente e superior; que nem todos os dias um homem educado pela philosophia, e saturado de erudição, faz a travessia da Africa ; e que em scieocia uma só verdade necessita mil experimentadores — Fradiqne quasi se impacientou:
— Não! INão tenho sobre a Africa, nem sobre coisa alguma n'este mundo, conclusões que por al- terarem o curso do pensar contemporâneo valesse a pena registrar... Só podia apresentar uma série de impressões, de paizagens. E então peor ! Porque o verbo humano, tal como o falíamos, é ainda impo- tente para encarnar a menor impressão intellectual ou reproduzir a simples forma d'um arbusto... Eu não sei escrever ! Ninguém sabe escrever I
Protestei, rindo, contra aquella generalisação tão inteiriça, que tudo varria, desapiedadamente. E lem- brei que a bem curtas jardas da chaminé que nos aquecia, n'aque!le velho bairro de Paris onde se er- guia a Sorbonna, o Instituto de França e a Escola Normal, muitos homens houvera, havia ainda, que possuíam do modo mais perfeito a «bella arte de di- zer».
— Quem? exclamou Fradique.
Comecei por Bossuet. Fradique encolheu os hom- bros, com uma irreverência violenta que me emmu-
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deceu. E declarou logo, ii'um resumo cortante, que nos dois melhores séculos da lilteratura franceza, desde o meu Bossuet até Beaumarchais, nenhum prosador para elle tinha relevo, côr, intensidade, vida. . . E nos modernos nenhum também o conten- tava. A distenção retumbante de Hugo era tão in- tolerável como a ílaccidez oleosa de Lamartine. A Michelet faltava gravidade e equilíbrio; a Renan soli- dez e nervo; a Taine fluidez e transparência; a Flau- bert vibração e calor. O pobre Balzac, esse, era de uma exuberância desordenada e barbarica. E o pre- ciosismo dos Goncourt e do seu mundo parecia-lhe perfeitamente indecente . . .
Aturdido, rindo, perguntei áquelle «feroz insatis- feito» que prosa pois concebia elle, ideal e miraculo- sa, que merecesse ser escripta. E Fradique, emocio- nado (porque estas questões de forma desmanchavam a sua serenidade) balbuciou que queria em prosa «alguma coisa de crystallioo, de avelludado, de on- adeante, de marmóreo, que só por si, plasticamente, «realisasse uma absoluta belleza — e que expressio- analmente, como verbo, tudo podesse traduzir desde «os mais fugidios tons de luz até os mais subtis es- aíados d'alma. . .»
— Emfim, exclamei, uma prosa como não pôde haver I
— Não! gritou Fradique, uma prosa como ainda não ha!
Depois, ajuntou, concluindo:
— E como ainda a não ha, é uma inutilidade es-
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crever. Só se podem produzir formas sem belleza: e deutro d'essas mesmas só cabe metade do que se queria exprimir, porque a outra metade não é redu- ctivel ao verbo.
Tudo isto era talvez especioso e pueril, mas re- velava o sentimeoto que mantivera mudo aquelle su- perior espirito — possuído da sublime ambição de só produzir verdades absolutamente definitivas por meio de formas absolutamente bellas.
Por isso, e não por indolência de meridional co- mo insinua Alceste, — Fradique passou no mundo, sem deixar outros vestígios da formidável actividade do seu sêr pensante além d'aquelles que por longos annos espalhou, á maneira do sábio antigo, «em con- «versas com que se deleitava, à tarde, sob os plata- «nos do seu jardim, ou em cartas, que eram ainda «conversas naturaes com os amigos de que as ondas «o separavam. . .» As suas conversas, o vento as le- vou— não tendo, como o velho dr. Johnson, um Bos- well, enthusiasta e paciente, que o seguisse pela ci- dade e pelo campo, com as largas orelhas attentas, e o lápis prompto a tudo notar e tudo eternizar. D'elle pois só restam as suas cartas — leves migalhas d'esse ouro de que falia Alceste, e onde se sente o brilho, o valor intrinseco, e a preciosidade do bloco rico a que pertenceram.
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YIII
Se a vida de Fradiqae foi assim goveraada por um tão constante e claro propósito de abstenção e silencio — eu, publicando as saas Cartas, pareço lan- çar estouvada e traiçoeiramente o meu amigo, depois da sua morte, D'esse ruido e publicidade a que elle sempre se recusou por uma rigida probidade de es- pirito. E assim seria — se eu não possuísse a eviden- cia de que Fradique incondicionalmente approvaria uma publicação da sua Correspondência, organisada com discernimento e carinho. Em 1888, n'uma carta em que lhe contava uma romântica jornada ua Bre- tanha, alludia eu a um livro que me acompanhara e me encantara, a Correspondência de Xavier Doudan — um d'esses espíritos recolhidos que vivem para se aperfeiçoar na verdade e não para se glorificar no mundo, e que, como Fradique, só deixou vestígios da sua intensa vida intellectual na sua Correspondên- cia, colligida depois com reverencia pelos confidentes do seu pensamento.
Fradique, na carta que me volveu, toda ociíapada dos Pyrenéos onde gastara o verão, accrescentava n'um post-scriptum : — «A. Correspondência de Dou- «dan é realmente muito legível; ainda que através
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«d'ella apenas se sente una espirito naturalmente 11- «naitado, que desde novo se entranhou no doutrina- «rismo da escola de Genebra, e que depois, cabida «em solidão e doença, só pelos livros conheceu a vi- «da, os homens e o mundo. Li em todo o caso essas «cartas — como leio todas as collecções de Correspon- «dencias, que, não sendo didacticamente preparadas «para o publico (como as de Plinio), constituem um «estudo excellenie de psychologia e de historia. Eis- «ahi uma maneira de perpetuar as idéas d'um homem «que eu afoutamente approvo — publicar-lhe a corres- «pondeocial Ha desde logo esta immensa vantagem: « — que o valor das idéas (e portanto a escolha das «que devem ficar) não é decidido por aquelle que as «concebeu, mas por um grupo de amigos e de criti- «cos, tanto mais livres e mais exigentes no seu jul- «gamento quanto estão julgando um morto que só «desejam mostrar ao mundo pelos seus lados supe- «riores e lumioosos. Além d'isso uma Corresponden- «cia revela melhor que uma obra a individualidade, «o homem ; e isto é inestimável para aquelles que na «terra valeram mais pelo caracter do que pelo ta- «lento. Accresce ainda que, se uma obra nem sempre «augmenta o pecúlio do saber humano, uma Corres- «pondencia, reproduzindo necessariamente os costu- «mes, os modos de sentir, os gostos, o pensar con- «temporaneo e ambiente, enriquece sempre o thesouro «da documentação histórica. Temos depois que as «cartas d'um homem, sendo o producto quente e vi- «brante da sua vida, contêm mais ensino que a sua
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«philosophia — que é apenas a creação impessoal do «sen espirito. Uma Philosophia ofTerece meramente «uma conjectura mais que se vai jontar ao immenso «montão das conjecturas: uma Vida qne se confessa «constitue o estudo d'uma realidade humana, que, «posta ao lado de outros estudos, alarga o nosso co- «nhecimento do Homem, único objectivo accessivel ao «esforço intellectual. E flnalmente como cartas são «palestras escriptas (assim aíBrma não sei que clas- «sico), ellas dispensam o revestimento sacramental «da tal prosa como rião ha... Mas este ponto pre- «cisava ser mais desembrulhado — e eu sinto parar «á porta o cavallo em qae vou trepar ao pico de Bi- «gorre».
Foi a lembrança d'esta opinião de Fradique, tão clara e fundamentada, que me decidiu, apenas em mim se foi calmando a saudade d'aquelle camarada adorável, a reunir as suas cartas para que os homens alguma coisa podessem aprender e amar n'aquella intelligencia que eu tão estreitamente amara e segui- ra. A essa carinhosa tarefa devotei ura anno — por- que a correspondência de Fradiqne, que, desde os quietos hábitos a que se acolhera depois de 1880 aquelle «andador de continentes», era a mais prefe- rida das suas occupações, apresenta a vastidão e a copiosidade da correspondência de Cicero, de Voltai- re, de Proudhon, e d'oatros poderosos remexedores de idéas. •
Sente-se logo o prazer com que compunha es- tas cartas na forma do papel — esplendidas folhas
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de Whatman, ebúrneas bastante para que a penoa corresse n'ellas com o desembaraço com que a voz corta o ar; vastas bastante para que n'ellas coubesse o desenrolamento da mais complexa idéa ; fortes bas- tante, na sua consistência de pergaminho, para que não prevalecesse contra ellas o carcomer do tempo. «Calculei já, ajudado pelo Smith (aíSrma elle a Car- los Mayer), «que cada uma das minhas cartas, n'este «papel, com enveloppe e estampilha, me custa 250 «reis. Ora suppondo vaidosamente que cada qninhen- «tas cartas minhas contêm uma idéa — resulta que «cada idéa me fica por cento e vinte e cinco mil reis. «Este mero calculo bastará para que o Estado, e a «económica Classe-Média que o dirige, empeçam com «ardor a educação — provando, como inilludivelmente «prova, que fumar é mais barato que pensar. . . Con- «trabalanço pensar e fumar, porque são, ó Carlos, «doas operações idênticas que consistem em atirar «pequenas nuvens ao vento».
Estas dispendiosas folhas têoa todas a um canto as iniciaes de Fradique — F. M. — minúsculas e sim- ples, em esmalte escarlate. A letra que as enche, singularmente desigual, oíferece a maior similitude com a conversação de Fradique: ora cerrada e fina, parecendo morder o papel como um buril para con- tornar bem rigorosamente a idéa ; ora hesitante e de- morada, com riscos, separações, como n'aquelle es- forço tão seu de tentear, espiar, cercar a real rea- lidade das coisas; ora mais fluida e rápida, lançada com facilidade e largueza, lembrando esses momentos
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de abundância e de veia que Fontan de Carmanges denominava le dégel de Fradiqiie, e em qne o gesto estreito e sóbrio se lhe desmanchava n'um esvoaçar de ílammula ao vento.
Fradique nunca datava as suas cartas: e, se el- las vinham de moradas familiares aos seus amigos, notava meramente o nome do mez. Existem assim cartas innumeraveis com esta resumida indicação — Paris, Julho; Lisboa, Fevereiro... Frequente- mente, também, restituía aos mezes as alcunhas na- turalistas do kalendario republicano — Paris, Flo- reai; Londres, Mvoze. Quando se dirigia a mulhe- res substituia ainda o nome do mez pelo da ílòr que melhor o symbolisa ; e possuo assim cartas com esta bucólica data — Florença, primeiras violetas (o que indica fins de fevereiro); Londres, chegada dos Cknj- santhemos (o que indica começos de setembro). Uma carta de Lisboa ofiíerece mesmo esta data atroz — Lis- boa, primeiros fluxos da verborreia parlamentar! (Isto denuncia um janeiro triste, com lama, tipóias no largo de S. Bento, e bacharéis em cima bolsando, por entre injurias, fezes de velhos compêndios).
Não é portanto possível dispor a Correspondência de Fradique por uma ordem chronologica : nem de resto essa ordem importa desde que eu não edito a sua Correspondência completa e integral, formando uma historia contínua e intima das suas idéas. Em cartas que não são d'um auctor e que não consti- tuem, como as de Voltaire ou de Proudhon, o cor- rente e constante commentario que acompanha e illu-
A CORRESPONDÊNCIA DE FRADIQUE MENDES 1?5
mioa a obra, cumpria sobretudo destacar as paginas que com mais saliência revelassem a personalidade — o conjunto de idéas, gostos, modos, em que lan- givelmente se sente e se palpa o homem. E por isso, D'estes pesados maços das cartas de Fradique, esco- lho apenas algumas, soltas, d'entre as que mostram traços de caracter e relances da existência activa; d'entre as que deixam entrever algnm instructivo episodio da sua vida de coração ; d'entre as que, re- volvendo noções geraes sobre a litteratura, a arte, a sociedade e os costumes, caracterisam o feitio do seu pensamento; e aiuda, pelo interesse especial que as realça, d'entre as que se referem a coisas de Portu- gal, como as suas «impressões de Lisboa», transcri- ptas com tão maliciosa realidade para regalo de Ma- dame de Jouarre.
Inútil seria decerto, n'estas laudas fragmentaes, procurar a summa do alto e livre Pensar de Fradique ou do seu Saber tão fundo e tão certo. A correspon- dência de Fradique Mendes, como diz finamente Al- ceste — c'est son genie qui mousse. N'ella, com effeito^ vemos apenas a espuma radiante e ephemera que fer- via e transbordava, emquanto em baixo jazia o vinho rico e substancial que não foi nunca distribuído nem serviu ás almas sedentas. Mas, assim ligeira e dis- persa, ella mostra todavia, em excellente relevo, a imagem d'este homem tão superiormente interessante em todas as suas manifestações de pensamento, de paixão, de sociabilidade e de acção.
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Além do meu desejo qae os contemporâneos ve- nham a amar este espirito que tanto amei — ea obe- deço, publicando as cartas de Fradique Mendes, a um intuito de puro e seguro patriotismo.
Uma nação só vive porque pensa. Cogitai ergo ■est. A Força e a Riqueza não bastam para provar que uma nação vive d'uma vida que mereça ser glo- rificada na Historia — como rijos músculos n'um corpo e ouro farto n'uma bolsa não bastam para que um homem honre em si a Humanidade. Um reino d'Afri- •ca, com guerreiros incontáveis nas suas aringas e in- contáveis diamantes nas suas collioas, será sempre uma terra bravia e morta, que, para lucro da Civi- lisação, os Civilisados pisam e retalham tão desassom- bradamente como se sangra e se corta a rez bruta para nutrir o animal pensante. E por outro lado se o Egypto ou Tunis formassem resplandecentes centros de Sciencias, de Litteraturas e de Artes, e, através de uma serena legião de homens geniaes, incessantemente educassem o mundo — nenhuma nação, mesmo n'esta idade de ferro e de força, ousaria occupar como um campo maninho e sem dono esses sólos augustos d'onde se elevasse, para tornar as almas melhores, o enxame sublime das Idéas e das Formas.
Só na verdade o Pensamento e a sua creação su- prema, a Sciencia, a Litteratura, as Artes, dão gran- deza aos Povos, attrahem para elles universal reve- rencia e carinho, e, formando dentro d'elles o the- souro de verdades e de bellezas que o mundo preci-
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;a, os tornara perante o mundo sacrosantos. Que dif- erença ha, realmeiíte, eotre Paris e Chicago? São luas palpitantes e prodactivas cidades — onde os pa- acios, as instituições, os parques, as riquezas, se equivalem soberbamente. Porque forma pois Paris um óco crepitante de Civilisação que irresistivelmente ascioa a humanidade — e porque tem Chicago apenas lobre a terra o valor de um rude e formidável cel- eiro onde se procura a farinha e o grão? Porque ^aris, além dos palácios, das instituições e das rique- ;as de que Chicago também justamente se gloria, )0ssue a mais um grupo especial de homens — Re- lao, Pasteur, Taine, Berthelol, Coppée, Bonnat, Fal- ;uieres, Gounod, Massenet — que pela incessante pro- lucção do seu cérebro convertem a banal cidade que labitam n'um centro de soberano ensino. Se as OH- ens do Christianismo, o Fausto, as telas de Bonnat, s mármores de Falguieres, nos viessem d'além dos aares, da nova e monumental Chicago — para Chi- ago, e não para Paris, se voltariam, como as plan- as para o sol, os espíritos e os corações da Terra.
Se uma nação, portanto, só tem superioridade orque tem pensamento, todo aquelle que venha re- elar na nossa pátria um novo homem de original ensar concorre patrioticamente para lhe angmentar nnica grandeza que a tornará respeitada, a única elleza que a tornará amada; — e é como quem aos sus templos juntasse mais um sacrário ou sobre as uas muralhas erguesse mais um castello.
Michelet escrevia um dia, n'uma carta alludiado
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a ÂDthero de Quental: — «Se em Portugal resta «quatro ou cinco homens como o auctor das Odes Mi adernas^ Portugal contiriúa a ser um grande pai «vivo. . .» O mestre da Historia de França com isto significava — que emquanto viver pelo lado da Intel- ligencia, mesmo que jaza morta pelo lado da Acção, a nossa pátria não é inteiramente um cadáver que sem escrúpulo se pise e se retalhe. Ora no Pensa- mento ha manifestações diversas : e se nem todas ir^ radiam o mesmo esplendor, todas provam a mesma vitalidade. Um livro de versos pôde sublimemente mostrar que a alma de uma nação vive ainda pelo Génio Poético: um conjunto de leis salvadoras, ema- nando de um espirito positivo, pôde solidamente com-^ provar que um povo vive ainda pelo Génio Poético:— mas a revelação de um espirito como o de Fradiquot assegura que um paiz vive também pelos lados me-^ nos grandiosos, mas valiosos ainda, da graça, da vi- vaz iQvenção, da transcendente ironia, da phantasia. I do humorismo e do gosto. . .
Nos tempos incertos e amargos que vão Portugue- ; zes d'estes não podem ficar para sempre esquecidos, j longe, sob a mudez de um mármore. Por isso eu o | revelo aos meus concidadãos — como uma consolação e uma esperança. \
AS CARTAS.
\
AO VISCONDE DE A.-T.
Londres, maio.
Meu caro patrício. — Só hontem á noite, tarde, ío recolher do campo, encontrei o bilhete com que consideravelmente me honrou, perguntando á minha íxperíeucia — «qual é o melhor alfaiate de Londres», íepende isso inteiramente do fim para qne V. neces- jita esse Artista. Se pretende meramente um homem |ae lhe cubra a nudez com economia e conforto, en- .ão recommendo-lhe aquelle que tiver taboleta mais jerto do seu Hotel. São tantos passos que forra — e, ;omo diz o Ecclesiastes, cada passo encurta a distan- cia da sepultura.
Se porém V., caro patricio, deseja um alfaiate que he dê consideração e valor no seu mundo ; que V. )ossa citar com orgulho á porta da Havaneza, rodan- lo lentamente para mostrar o corte ondeado e fino la cinta ; que o habilite a mencionar os Lords que lá
132 A CORRESPONDÊNCIA. DE FRADIQUE MENDES
encontrou, escolhendo d'aUo, C3m a ponta da benga la, cheviotes para blusas de caça ; e que lhe sirvi mais tarde, na velhice, á hora gêba do rheumatismo como recordação consoladora de elegâncias moças — ea tão com ardente instancia lhe aconselho o Cook (( Thomaz Cook) que é da mais estremada moda, abso lutamente ruinoso, e falha tudo.
Para subsequentes conselhos de « fornecedores x», em Londres ou outros pontos do Universo, permaneça sempre ao seu grato serviço — Fkadique Mendks.
II
A MADAME DE JOUARRK (Trai.) 1
Parif, dezembro.
Minha querida madrinha. — Hontem, em casa de Madame de Tressan, quando passei, levando para a ceia Libuska, estava sentada, conversando comsigo, por debaixo do atroz retrato da Marechala de Mouy,
1 Muitas das cartas de Fradique Mendes, aqui pu- blicadas, são naturalmente escriptas em Francez. Todas essas vão acompanhadas da indicação abreviada trad. (tra- duzida).
A CORRESPONDÊNCIA. DE FRADIQUE MENDES 133
uma mulher loura, de testa alta e clara, que me se- duziu logo, talvez por lhe presentir, apesar de tão indolentemente enterrada D'um divan, uma rara graça no andar, graça altiva e ligeira de Deusa e de ave. Bem differente da nossa sapiente Libuska, que se move com o esplendido peso de uma estatua! E do interesse por esse outro passo, possivelmente alado e dianico (de Diana), provém estas garatujas.
Quem era? Supponho que nos chegou do fundo <la provincia, d'algum velho castello do Anjou com berva nos fossos, porque me não lembro de ter en- contrado em Paris aqnelles cabellos fabulosamente louros como o sol de Londres em dezembro — nem aquelles hombros descabidos, dolentes, angélicos, imi- tados de uma madona de Montegna, e inteiramente -desusados em França desde o reinado de Carlos x, do Lyrio no Valle, e dos corações incomprehendidos. Não admirei com igual fervor o vestido preto, onde reinavam coisas escandalosamente amarellas. Mas os braços eram perfeitos; e nas pestanas, quando as baixava, parecia pender um romance triste. Deu-me assim a impressão, ao começo, de ser uma elegíaca do tempo de Chateaubriand. JNos olhos porém surpre- hendi-lhe depois uma faisca de vivacidade sensível — que a datava do século xviii. Dirá a minha madri- nha:—«como pude eu abranger tanto, ao passar, com Libuska ao lado fiscalisando?i> É que voltei. Vol- tei, e da hombreira da porta readmírei os hombros dolentes de virgem do século xm ; a massa de cabel- los que o molho de velas por traz, entre as orchideas,
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nimbava d'ouro; e sobretudo o subtil encanto dos olhos — dos olhos finos e languidos... Olhos finos e languidos. E' a primeira expressão em que hoje apanho deceotemeote a realidade.
Porque é que não me adiantei, e não pedi uma aapresentação?» Nem sei. Talvez o requinte em re- tardar, que fazia com que La-Fontaine, dirigiodo-se mesmo para a felicidade, tomasse sempre o caminho mais longo. Sabe o que dava tanta seducção ao palá- cio das Fadas, nos tempos do rei Arthur? i\ão sabe. Resultados de não lêr Tennyson. . . Pois era a immen- sidade d'annos que levava a chegar lá, através de jardins encantados, onde cada recanto de bosque offe- rocia a emoção Inesperada d'um flirt, d'uma batalha, ou d'um banquete... (Com que mórbida propensão acordei hoje para o estylo asiático!) O facto é que, depois da contemplação junto á hombreira, voltei a cear ao pé da minha radiante tyranna. Mas por entre o banal sandwich de foie-gras, e um copo de Tokay em nada parecido com aquelle Tokay que Voltaire, já velho, se recordava de ter bebido em casa de Ma- dame d'Eiioles (os vinhos dos Tressans descendem em linha varonil dos venenos da Brinvilliers), vi, constantemente vi, os olhos finos e languidos. Kão ha senão o homem, entre os animaes, para misturar a lan- guidez d'um olhar fino a fatias de foie-gras. Não o fa- ria decerto um cão de boa raça. Mas seriamos nós] desejados pelo «ephemero feminino» se não foss&j esta providencial brutalidade? Só a porção de Maté- ria que ha no homem faz com que as mulheres se re-j
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sigoem á incorrigível porção d'Ideal que n'elle ha também — para eterna periarbação do mundo. O que mais prejudicou Petrarcha aos olhos de Lanra — fo- ram os Sonetos. E quando Romeu, já com um pé na escada de seda, se demorava, exhalando o seu extasi em invocações á Noite e á Lua — Julietta batia os de- dos impacientes no rebordo do balcão, e pensava : «Ai, que palrador que és, filho dos Montaigus !» Este detalhe não vem em Shakspeare — mas é compro- vado por toda a Renascença. Não me amaldiçoe por esta sinceridade de meridional sceptico, e mande-me dizer que nome tem, na sua parochia, a loura cas- tellã do Anjou. A propósito de castellos: cartas de Portugal aonunciam-me que o kiosque por mim man- dado erguer em Cintra, na minha quintarola, e que lhe destinava como a seu pensadoiro e retiro nas ho- ras de sesta: — abateu. Três mil e oitocentos fran- cos achatados em entulho. Tudo tende á ruina n'um paiz de ruínas. O architecto que o construiu é depu- tado, e escreve no Jornal da Tarde estudos melan- cólicos sobre as Finanças 1 O meu procurador em Cin- tra aconselha agora, para reedificar o kiosque, um estimável rapaz, de boa família, que entende de cons- trucções e que è empregado na Procuradoria Geral da Coroa! Talvez se eu necessitasse um Juriscon- sulto me propozessem um trolha. E' com estes ele- mentos alegres que nós procuramos restaurar o nosso império d'Africa ! Servo humilde e devoto — Fradique.
1311 A CORRESPONDÊNCIA DE FR.\D1QUE MENDES
III
A OLIVEIRA MARTINS
Paris, maio.
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Querido amigo. — Cumpro emfim a promessa feita na sua erudita ermida das Aguas-Ferreas, n'aquella manhã de Março em que conversávamos ao sol sobre o caracter dos Antigos, — e remetto, como documen- to, a photograptiia da múmia de Ramèzes ii (que o francez banal, continuador do grego banal, teima em chamar Sezostris), recentemente descoberta nos sar- cophagos reaes de Medinet-Abou pelo professor Mas- pero.
Garo Oliveira Martins, não acha V. picarescamente suggestivo este facto — Ramèzes photographado? Mas ahi está justificada a mumificação dos cadáveres, feita pelos bons Egypcios com tanta fadiga e tanta despe- za, para que os homens gozassem na sua forma ter- reoa, segundo diz o Escriba, «as vantagens da Eter- nidade!» Ramèzes, como elle acreditava e lhe affir- mavam os metaphysicos de Thebas, resurge efife- ctivamente «com todos os seus ossos e a pelle que era suai» n'este anuo da Graça de 1886. Ora 1886, para um Pharaoh da decima-nona dynastia, mil e quatrocentos aonos anterior a Ghristo, representa muito decentemente a Eternidade e a Vida- Futura.
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E eis-nos agora podendo contemplar as «próprias feições» do maior dos Ramezidas, tão realmente co- mo Hokem seu Eunuco- Mór, ou Pentaour seu Chro- nista-Mór, ou aquelles que outr'ora em dias de trium- phos corriam a juncar-lbe o caminho de flores, tra- zendo « os seus chinos de festa e a cútis envernizada com óleos de Segabai». Ahi o tem V. agora diante de si, em photographia, com as pálpebras baixas e sorrindo. E que me diz a essa face real? Que humi- lhantes reflexões oão provoca ella sobre a irremediá- vel degeneração do homem ! Onde ha ahi hoje um, entre os que governam povos, que tenha essa sobe- rana fronte de calmo e incommensuravel orgulho; esse superior sorriso de omnipotente benevolência, d'uma ineffavel benevolência que cobre o mundo; esse ar de imperturbada e indomável força ; todo esse esplendor viril que a treva de um hypogeo, durante três mil annos, não conseguiu apagar? Eis-ahi verda- deiramente um Dono de homens! Compare esse sem- blante augusto com o perfil sôrno, obliquo e bigo- doso d'um Napoleão iii; com o focinho de bull-dog acorrentado d'um Bismarck ; ou com o carão do Czar russo, um carão parado e aífavel que podia ser o do seu Gopeiro-Mór. Que chatezaj que fealdade tacanha d'estes rostos de poderosos!
D'onde provém isto? De que a alma modela a face como o sopro do antigo oleiro modelava o vaso fino: — e hoje, nas nossas civilisações, não ha logar para que uma alma se afârme e se produza na abso- luta expansão da sua força. Outr'ora um simples ho-^
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mem, um feixe de músculos sobre um feixe d'ossos, podia ergaer-se e operar como um elemento da Natu- reza. Bastava ter o iilimitado querer — para d'elle ti- rar o iilimitado poder. Eis-ahi em Ramèzes um sêr que tudo quer e tudo pôde, *e a quem Phtah, o Deus sagaz, diz com espanto: <?a tua vontade dá a vida e a tua vontade dá a morte ! » Elle impelle a seu bel-prazer as raças para norte, para sul ou para les- te; elle altera e arraza, como muros n'um campo,"^ as fronteiras dos reinos; as cidades novas surgem das suas pegadas; para elle nascem todos os fructos da terra, e para elle se volta toda a esperança dos homens; o logar para onde volve os seus olbos é bemdito e prospera, e o logar que não recebe essa luz benéfica jaz como «o torrão que o Nilo não bei- jou»; os deuses dependem d'elle, e Amnon estreme- ce inquieto quando, diante dos pylones do seu templo, Ramèzes faz estalar as três cordas entrançadas do seu látego de guerra I Eis um homem — e que segura- mente pôde affirmar no seu canto triumphal: — «Tudo tt vergou sob a minha força: eu vou e venho com as «passadas largas d'um leão; o rei dos deuses está á «minha direita e também á minha esquerda ; quando «eu fallo o céo escuta; as coisas da terra estendem- «se a meus pés, para eu as colher com mão livre; «e para sempre estou erguido sobre o throno do «mundo I y>
«O mundo», está claro, era aquella região, pela maior parte arenosa, que vai da cordilheira Libyca á Mesopotâmia: e nunca houve mais petulante emphase
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do que nas Panegyrias dos Escribas. Mas o homem é, ou suppÕB ser, ÍDÍgnalavelmente grande. E esta consciência da grandeza, do incircumscripto poder vem necessariamente resplandecer na physionomia e dar essa altiva magestade, repassada de risonha se- renidade, que Ramèzes conserva mesmo além da vi- da, resequido, mumificado, recheado de betume da Judêa.
Veja V. por outro lado as condições que cercam hoje um poderoso do typo Bismarck. Um desgraçado d'esses não está acima de nada e depende de tudo. Cada impulso da sua vontade esbarra com a resis- teocia d'ura obstáculo. A sua acção no munda é um perpetuo bater de craneo contra espessuras de portas bem defendidas. Toda a sorte de convenções, de tra- dições, de direitos, de preceitos, de interesses, de princípios, se lhe levanta a cada instante diante dos passos como marcos sagrados. Um artigo de jornal fal-o estacar, hesitante. A. rabulice d'um legista obri- ga-o a encolher precipitadamente a garra que já ia estendendo. Dez burguezes nédios e dez professores gaedelhudos, votando dentro d'uma sala, estatelam por terra o alto andaime dos seus planos. Alguns florins dentro d'um sacco tornam-se o tormento das suas noites. É-lhe tão impossível dispor d'um cida- dão como d'um astro. Nunca pôde avançar d'uma arrancada, erecto e seguro: tem de ser ondeante e rastejante. A vigilância ambiente impõe-lhe a neces- sidade vil de fallar baixo e aos cantos. Em vez de «recolher as coisas da terra, com mão livre» — sur-
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ripia-as ás migalhas, depois de escuras intrigas. As irresistíveis correntes de idéas, de seolimentos, de interesses, trabalham por baixo d'elle, em torno d'elle: e parecendo dirigil-as, pelo muito que bra- ceja e ronca dalto, é na realidade por ellas arras- tado. Assim um omnipotente do typo Bismarck vai por vezes em apparencia do cimo das grandes coi- sas;— mas como a bóia solta vai no cimo da tor- rente. \
Miserável omnipotência ! E o sentimento d'esta miséria não pôde deixar de influenciar a physiono- mia dos nossos poderosos dando- lhe esse feitio con- trafeito, crispado, torturado, azedado e sobretudo amolgado que se nota na cara de Napoleão, do Czar, de Bismarck, de todos os que reúnem a maior somma de poder contemporâneo — o feitio amolgado- d'uma coisa que rola aos encontrões, batendo contra muralhas.
Em conclusão: — a múmia de Ramèzes ii (única face authentica do homem antigo que conhecemos) prova que, tendose tornado impossível uma vida humana vívida na sua máxima liberdade e na sua máxima força, sem outros limites que os do pró- prio querer — resultou perder-se para sempre, no typo physico do homem, a summa e perfeita expres- são da grandeza. Já não ha uma face sublime: ha carantonhas mesquinhas onde a bílis cava rugas por entre os recortes do pêllo. As únicas physionomias nobres são as das feras, genuínos Ramèzes no seu deserto, que nada perderam da sua força, nem da
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sua liberdade. O homem moderno, esse, mesmo nas alturas sociaes, é um pobre Adão achatado entre as duas paginas d'um código.
Se V. acba tudo isto excessivo e phantasista, at- tribua-o a que jantei hontem, e conversei inevitavel- mente, com o seu correligionário P., conselheiro d'es- tado, e muchas cosas más. Más em hespanhol ; e más lambem em portuguez no sentido de péssimas. Esta caria é a reacção violenta da conversa conselheiral e conselheirifera. Ah, meu amigo, desditoso amigo, que faz V. depois de receber o flaxo labial d'um conse- lheiro? Eu tomo um banho por dentro — um banho lustral, immenso banho de phantasia, onde despejo como perfume idóneo um frasco de Shelley ou de Musset. Amigo certo et nunc et semper — Fradique Mendes.
IV
A MADAME S.
Paris, fevereiro.
Minha cara amiga. — O hespanhol chamase Dom Ramon Covarubia, mora na Passage Saulnier, 12, e como é aragonez, e portanto sóbrio, creio que com dez francos por lição se contentará amplamente. Mas se seu filho já sabe o castelhano necessário para en- tender os Romanceros, o D. Quichoie, alguns dos
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«Piccarescos», vinte paginas de Quevedo, duas co- medias de Lope de Vega, um ou outro romance de (ialdós, que é tudo quanto basta lêr na litteratura |1 de Hespanha, — para que deseja a minha sensata amiga que elle pronuncie esse castelhano que sabe com o accento, o sabor, e o sal d'um madrileno nas- cido nas veras pedras da Galle-.Mayor? Vai assim o dôee Raul desperdiçar o tempo que a Sociedade lhe, marcou para adquirir idéas e noções (e a Sociedade a um rapaz da sua fortuna, do seu nome e da sná\_ belleza, apenas concede, para esse abastecimento in- tellectual, sete annos, dos onze aos dezoito) — em quê? No luxo de apurar até a um requinte superfi- no, e superlluo, o mero instrumento de adquirir no- ções e idéas. Porque as línguas, minha boa amiga, são apenas instrumentos do saber — como instrumen-j tos de lavoura. Consumir energia e vida na aprendi- zagem de as pronunciar tão germina e puramente que pareça que se nasceu dentro de cada uma d'ellas, e| que por meio de cada uma se pediu o primeiro pão e agua da vida — é fazer como o lavrador, que em vez de se contentar, para cavar a terra, com umj ferro simples encabado n'um pau simples, se appli- casse, durante os mezes em que a horta tem de ser^ trabalhada, a embutir emblemas no ferro e esculpir; flores e folhagens ao comprido do pau. Com um hortelão assim, tão miudamente occupado em alindari e requintar a enxada, como estariam agora, minha senhora, os seus pomares da Touraine?
Um homem só deve fallar, com impeccavel se-
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giirança e pnreza, a liogua da sua terra: — todas as outras as deve fallar mal, orgulbosameote mal, cora aquelle accento chato e falso que denuncia logo o estrangeiro. Na lingua verdadeiramente reside a nacionalidade; — e quem fôr possuindo com crescente perfeição os idiomas da Europa vai gradualmente sof- frendo uma desnacionalisação. Não ha já para elle o especial e exclusivo encanto da falia materna com as suas inQuencias affectivas, que o envolvem, o isolam das outras raças; e o cosmopolitismo do Verbo irre- mediavelmente lhe dá o cosmopolitismo do caracter. Por isso o polyglota nunca é patriota. Com cada idioma alheio que assimila, introduzem-se-lhe no organismo moral modos alheios de pensar, modos alheios de sentir. O seu patriotismo desapparece, diluido em estrangeirismo. Rue de Rivoli, Called^Al- cala, Begent Street, Wilhem Strasse — que lhe im- porta? Todas são ruas, de pedra ou de macadam. Em todas a falia ambiente lhe offerece um elemento natural e congénere onde o seu espirito se move li- vremente, espontaneamente, sem hesitações, sem at- tritos. E como pelo Verbo, que é o instrumento es- sencial da fusão humana, se pôde fundir com todas
— em todas sente e aceita uma Pátria. Por outro lado, o esforço contínuo de um homem
para se exprimir, com genuina e exacta propriedade de constrncção e de accento, em idiomas estranhos
— isto é, o esforço para se confundir com gentes estranhas no que ellas têm de essencialmente cara- cterístico, o Verbo— apaga n'elle toda a individuali-
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dade nativa. Ao fim de annos esse habilidoso, que chegou a fallar absolutamente bem outras línguas além da sua, perdeu toda a originalidade de espi- rito— porqae as suas idéas forçosamente devem ter a natureza iucaracteristica e neutra que lhes permitta serem indiffereutemente adaptadas ás línguas mais oppostas em caracter e génio. Devem, de facto, ser como aquelles «corpos de pobre» de que tão triste- mente falia o povo — «que cabem bem na roupa de toda a gente».
Além d'isso, o propósito de pronunciar com per- feição linguas estrangeiras constilue uma lamentável sabujice para com o estrangeiro. Ha ahi, diante d'elle, como o desejo servil de não sermos nós mesmos, de nos fdndirmos n'elle, no que elle tem de mais seu, de mais próprio, o Vocábulo. Ora isto é uma abdi- cação de dignidade nacional. Não, minha senhora! Fallemos nobremente mal, patrioticamente mal, as línguas dos outros! Mesmo porque aos estrangeiros o polyglota só inspira desconfiança, como sér que não tem raízes, nem lar estável — sêr que rola atra- vés das nacionalidades alheias, successivamente se disfarça n'ellas, e tenta uma installação de vida em todas porque não é tolerado por nenhuma. Com ef- feito, se a minha amiga percorrer a Gazeta dos Tri- bunaes verá que o perfeito polyglotismo é um ins- trumento da alta escroquerie,
E aqui está como, levado pelo dilettantismo das idéas, em vez d'um endereço eu lhe forneço um tra- tado 1 . . . Que a minha garrulice ao menos a faça sor-
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rir, pensar, e poupar ao nosso Raul o trabalho me- donho de pronunciar Viva la Gracia! e Benditos sean tus ojos! exactissimamente como se vivesse a uma esquina da Puerta dei Sol, cono uma capa de bandas de velludo, chupando o cigarro de Lazarillo. Isto to- davia não impede qae se utilisem os serviços de D. Ramon. Elle, além de Zorrillista, é guitarrista ; e pôde substituir as lições na lingua de Quevedo por lições na guitarra de Alraaviva. O seu lindo Raul ga- nhará ainda assitn uma nova faculdade de exprimir — a faculdade de exprimir emoções por meio de cor- das de arame. E este dom é excelleote ! Convém mais na mocidade, e mesmo na velhice, saber, por meio das quatro cordas d'uma viola, desafogar a alma das coisas confasas e sem nome que n'ella tumultuam, do que poder, através das estalagens do mundo, re- clamar com perfeição o pão e o queijo — em sneco, hollandez, grego, búlgaro e polaco.
E será realmente indispensável mesmo para pro- ver, através do mundo, estas necessidades vitaes d'es- tomago e alma — o trilhar, durante annos, pela mão dura dos mestres, «os descampados e atoleiros das grammaticas e pronuncias», como dizia o velho Mil- ton? Eu tive uma admirável tia que fallava unica- mente o portuguez (ou antes o minhoto) e que per- correu toda a Europa com desafogo e conforto. Esta senhora, risonha mas dyspeptica, comia simplesmente ovos — que só conhecia e só comprehendia sob o seu nome nacional e vernáculo de ovos. Para ella huevos, ceufs, eggs, das et, eram sons da Natureza bruta,
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pouco diíTerençaveis do coaxar das rãs, ou d'um es- talar de madeira. Pois quando em Londres, em Ber- lim, em Paris, em Moscow, desejava os seus ovos— J esta expedita senhora reclamava o fâmulo do Hoí tel, cravava n'elle os olhos agudos e bem explica- dos, agachava -se gravemente sobre o tapete, imitava com o, rebolar lento das saias tufadas uma gallinhá no chôijo, e gritava ki-ki-ri-ki! kó-kó-ri-kil k&^ó\ kó-kó! Nunca, em cidade ou região intelligente Universo, minha tia deixou de comer os seus ovo]| — e superiormente frescos!
Beijo as suas mãos, benévola amiga — FradiqueJ
A GUERRA JUNQUEIRO
Paris, maio.
Meu caro amigo. — A sua carta transborda de il^ lusão poética. Suppôr, como V. candidamente suj põe, que trespassando com versos (ainda mesmo seus 6 mais rutilantes que as flechas de Apollo) a Igrejí o Padre, a Liturgia, as Sacristias, o jejum da sexta- feira e os ossos dos Martyres, se pôde «desentulhar Deus da alluvião sacerdotal», e elevar o Povo (no Povo V. decerto inclue os conselheiros de Estado) a uma comprehensão toda pura e abstracta da Religião
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~a uma religião que consista apenas n'uma Moral apoiada n'uma Fé — é ter da Religião, da sua esseu- cia e do seu objecto, uma sonhadora idéa de soniia- dor teimoso em sonlios !
Meu bom amigo, uma Religião a que se elimioe o Ritual desapparece — porque as Religiões para os ho- mens (com excepção dos raros Metaphysicos, Mora- listas e Mysticos) não passa d'um conjunto de Ritos através dos quaes cada povo procura estabelecer uma communicação intima com o seu Deus e obter d'elle favores. Este, só este, tem sido o fim de todos os cultos, desde o mais primitivo, do culto de Indra, até ao culto recente do coração de Maria, que tanto o escandalisa na sua parochia — oh incorrigivel beata do idealismo I
Se V. o quer verificar historicamente, deixe Vian- na do Gastello, tome um bordão, e suba commigo por essa antiguidade fora até um sitio bem cultivado e bem regado que fica entre o rio Indo, as escarpas do Hymalaia, e as aréas d'um grande deserto. Esta- mos aqui em Septa-Sindhou, no paiz das Sete-Aguas, no Valle Feliz, na terra dos Aryas. No primeiro po- voado em que pararmos V. vê, sobre um outeiro, um altar de pedra coberto de musgo fresco: em cima brilha pallidamente um fogo lento: e em torno per- passam homens, vestidos de linho, com os longos cabellos presos por um aro d'ouro fino. São padres, íneu amigo! São os primeiros capellães da humani- dade,— e cada um d'elles está, por esta quente alvo- rada de maio, celebrando um rito da missa Aryana.
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Um limpa e desbasta a lenha que ha de nutrir o lume sagrado; outro pisa dentro d'um almofariz com pan- cadas que devem resoar «como tambor de victoria», as hervas aromáticas que dão o Sòmma; este, como um semeador, espalha grãos de aveia em volta da Ara ; aqaelle, ao lado, espalmando as mãos ao céo, entoa um cântico austero. Estes homens, meu ami- go, estão executando um Rito que encerra em si toda a Religião dos Aryas, e que tem por objecto propiciar Indra— Indra, o sol, o fogo, a potencia divina que pode encher de ruina e dôr o coraçãc do Arya, sorvendo a agua das regas, queimando os pastos, desprendendo a pestilência das lagoas, tor- nando Septa-Sindhou mais estéril que o « coração- doj mau»; ou pôde, derretendo as neves do Hymalaia, e soltando com um golpe de fogo « a chuva que jas no ventre das nuvens «, restituir a agua aos rios, verdura aos prados, a salubridade ás lagoas, a ale^ gria e abundância á morada do Arya. Trata-se pois| simplesmente de convencer Indra a que, sempre pro- picio, derrame sobre Septa-Sindhou todos os favoresj que pôde appetecer um povo rural e pastoral.
Não ha aqui Metaphysica nem Ethica — nem ex- plicações sobre a natureza dos deuses, nem regras para a conducta dos homens. Ha meramente uma Liturgia, uma totalidade de Ritos, que o Arya neces- sita observar para que Indra o altenda — uma vezj que, pela experiência de gerações, se comprovou qaej Indra só o escutará, só concederá os benefícios ro-j gados, quando em torno ao seu altar certos velhos J
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de certa casta, vestidos de linho cândido, lhe ergue- rem cânticos doces, Itie oíTertareiíi libações, lhe amoa- toarem dons de friicta, mel e carne d'antio. Sena dons, sem libações, sem cânticos, sem anho, Indra, amuado e sumido no fundo do Invisível e do Intangível, não descerá á terra a derramar-se na sua bondade. E se vier de Vianna do Castello um Poeta tirar ao Arya o seu altar de musgo, o seu pau sacrosanto, o almofa- riz, o crivo e o vaso do Sômma, o Arya ficará sem meios de propiciar o seu Deus, desattendido do seu Deus — e será na terra como a creancinha que nin- guém nutre e a que ninguém ampara os passos.
Esta Religião primordial é o typo absoluto e inal- terável das Religiões, que todas por inslincto repe- tem— e em que todas (apesar dos elementos estra- nhos de Theologia, de Metaphysica, de Ethica que lhe introduzem os espíritos superiores) terminam por se resumir com reverencia. Em todos os climas, em to- das as raças, ou divinisando as forças da Natureza, ou divinisando a Alma dos mortos, as Religiões, ami- go meu, consistiram sempre praticamente n'um con- junto de praticas, pelas quaes o homem simples pro- cura alcançar da amizade de Deus os bens supremos da saúde, da força, da paz, da riqueza. E mesmo quando, já mais crente no esforço próprio, pede esses bens á bygiene^ á ordem, á lei e ao trabalho, ainda persiste nos ritos propiciadores para que Deus ajude o seu esforço.
O que V. observou em Septa-Sindhou poderá ve-
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riScar ignalmeote, parando (antes de recolhermos a Vianna, a beber esse vinho verde de Monção, que V. dithyrambisa) na Antiguidade clássica, era Atbenas ou Roma, onde quizer, no momento de maior esplendor e cultura das civilisações greco- latinas. Se V. abi perguntar a um antigo, seja um oleiro de Suburra, seja o próprio Flamen Dialis, qual é o corpo de dou- trinas e de conceitos moraes que compõe a Religião, — elle sorrirá, sem o comprehender. E responde» á que a Religião consiste em paces deorum quaerere, em apaziguar os Deuses, em segurar a benevolência ] dos Deuses. Na idéa do antigo isso significa cumprir i os ritos, as praticas, as formulas, que uma longa | tradição demonstrou serem as únicas que conseguem | fixar a attenção dns Deuses e exercer sobre elles | persuasão ou seducção. E n'esse ceremouial era ia- .| dispensável não alterar nem o valor d'ama syllaba na % Prece, nem o valor d'um gesto no sacrificio, porqne^^ d'outro modo o Deus, não reconhecendo o Sacrificio ^ da sua dilecção e a Prece do seu agrado, permanecia | desattento e alheio; e a Religião falseava o seu fim | supremo— influenciar o Deus. Peor ainda! Passava a,vs ser a irreligião: e o Deus, vendo n'essa omissão de liturgia uma falta de reverencia, despedia logo das Alturas os dardos da sua cólera. A obliquidade das- pregas na túnica do Sacrificador, um passo lançado á direita ou movido á esquerda, o cahir lento das gottas da libação, o tamanho das achas do lume vo- tivo, todos esses detalhes estavam prescriptos immu-
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tavelmente pelos Ritaaes, e a sua exclusão ou a sna alteração constituiam impiedades. Coostituiam verda- deiros crimes contra a pátria — porque aítrahiam so- bre ella a indignação dos deuses. Quantas Legiões vencidas, quantas cidadellas derrubadas, porque o PontiQce deixara perder um grão de cinza da ara — ou porque Auruspice não arrancou lã bastante da ca- beça do anho! Por isso Athenas castigava o Sacer- dote que alterasse o ceremonial; e o senado depunha os Cônsules que commettiam um erro no sacrificio
— fosse elle tão ligeiro como reter a ponta da toga sobre a cabeça, quando ella devia escorregar sobre o hombro. De sorte que V., em Roma, lançando ironias d'ouro á Divindade, era talvez um grande e admirado Poeta Cómico: mas satyrisando, como na Velhice do Padre Eterno, a Litargia e o Ceremonial, era um inimigo publico, um traidor ao Estado, vo- tado às masmorras do Tuliano.
E se, já farto d'estes tempos antigos, V. quizer volver aos nossos philosophicos dias, encontrará nas dnas grandes Religiões do occidente e do oriente, no Catholicismo e no Budhismo, uma comprovação ainda mais saliente e mais viva de que a Religião consist-e intrinsecamente de praticas, sobre as quaes a Theo- logia e a Moral se sobrepozeram, sem as penetrarem, como um luxo intellectual, accessorio e transitório
— flores pregadas no altar pela imaginação ou pela virtude idealista. O Catholicismo (íiinguerâ mais fu- riosamente o sabe do que V.) está hoje resumido a
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uma cur[a série de observancias materiaes: — e to- davia nanca houve Religião dentro da qual a Intelli- gencia erguesse mais vasta e alta eslructura de con- ceitos theologicos e moraes. Esses c tnceitos, porém, obra de doutores e de mysticas, nunca propriamente sahiram das escolas e dos mosteiros — onde eram preciosa matéria de dialéctica ou de poesia ; nunca penetraram nas multidões para raethodicamente go- vernar os juízos ou conscientemente governar as acções. Reduzido a catechismos, a cartilhas, esse^ corpo de conceitos foi decorado pelo povo: — mas nunca o povo se persuadiu que tinha Religião, e que portanto agradava a Deus, servia a Deus, sò por cumprir os dez mandamentos, fora de toda a pratica e de toda a observância ritual. E só decorou mesmo esses Dez Mandamentos, e as Obras de Misericórdia, 6 os outros preceitos moraes do Catechismo, pela idéa d-i que esses versicalos, recitados com os lábios, tinham, por uma virtude maravilhosa, o poder de attrahir a attenção, a bemquerença e os favores do Senhor. Para servir a Deus, que é o meio de agra- dar a Deus, o essencial foi sempre ouvir missa, es- tiar o rosário, jejuar, commungar, fazer promessas, dar túnicas aos santos, etc. Só por estes ritos, e não pelo cumprimento moral da lei moral, se propicia a Deus, —isto é, se alcançam d'elle os dons inestimá- veis da saúde, da felicidade, da riqueza, da paz. O mesmo Céo e Inferno, sancção extra-terreslre da lei, nunca, na idéa do povo, se ganhava ou se evitava
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pela pontual obediência á lei. E talvez com razão, por isso mesmo que no Gatholicismo o premio e o castigo Dão são manifestações da justiça de Deus, mas da graça de Deus. Ora a graça, no pensar dos simples, só se obtém pela constante e incansável pra- tica dos preceitos — a missa, o jejum, a penitencia, a communhão, o rosário, a novena, a oíTerta, a pro- messa. De sorte que no catbolieismo do Minboto co- mo na religião do Arya, em Septa-Sindhou como em Carrazeda d'Ânciães, tudo se resume em propiciar Deus por meio de praticas que o captivem. INão ba aqui Tbeologia, nem Moral. Ha o acto do infinita- mente fraco querendo agradar ao infinitamente forte. E se V., para purificar este Catbolieismo, eliminar o Padre, a estola, as galbetas e a agua- benta, todo o Rito e toda a Liturgia — o catbolico immediatamente abandonará uma Religião que não tem Egreja visivel, e que não Ibe oíTerece os meios simples e tangíveis de communicar com Deus, de obter d'elle os bens transcendentes para a alma e os bens sensíveis para o corpo. O Catbolieismo n'esse instante terá acabado, milbões de seres terão perdido o seu Deus. A Egreja é o vaso de que Deus é o perfume. Egreja partida — Deus volatilisado.
Se tivéssemos tempo de ir á China ou a Ceylão, V. toparia com o mesmo phenomeno no Budhismo. Dentro d'essa Religião foi elaborada a mais alta das Metaphysicas, a mais nobre das Moraes : mas em to- das as raças em que elle penetrou, nas barbaras ou
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